sexta-feira, 7 de maio de 2010

Os pais envelhecem


Os pais envelhecem (do http://luzdeluma.blogspot.com)

Talvez a mais rica, forte e profunda experiência da caminhada humana seja a de ter um filho.
Plena de emoções, por vezes angustiantes, ser pai ou mãe é provar os limites que constituem o sal e o mel do ato de amar alguém.
Quando nascem, os filhos comovem por sua fragilidade, seus imensos olhos, sua inocência e graça.
Basta vê-los para que o coração se alargue em riso e cor.
Um sorriso é capaz de abrir as portas de um paraíso.
Eles chegam à nossa vida com promessas de amor incondicional.
Dependem de nosso amor, dos cuidados que temos.
E retribuem com gestos que enternecem.
Mas os anos passam e os filhos crescem.
Escolhem seus próprios caminhos, parceiros e profissões.
Trilham novos rumos, afastam-se da matriz.
O tempo se encarrega da formação de novas famílias.
Os netos nascem.
Envelhecemos.
E, então, algo começa a mudar.
Os filhos já não têm pelos pais aquela atitude de antes.
Parece que agora só os ouvem para fazer críticas, reclamar, apontar falhas.
Já não brilha mais nos olhos deles aquela admiração da infância e isso é uma dor imensa para os pais.
Por mais que disfarcem, todo pai e mãe percebem as mínimas faíscas no olho de um filho.
É quando pais, idosos, dizem para si mesmos:
Que fiz eu? Por que o encanto acabou? Por que meu filho já não me tem como seu herói particular?
Apenas passaram-se alguns anos e parece que foram esquecidos os cuidados e a sabedoria que antes era referência para tudo na vida.
Aos poucos, a atitude dos filhos se torna cada vez mas impertinente.
Praticamente não ouvem mais os conselhos.
A cada dia demonstram mais impaciência.
Acham que os pais têm opiniões superadas, antigas.
Pior é quando implicam com as manias, os hábitos antigos, as velhas músicas.
E tentam fazer os velhos pais se adaptarem aos novos tempos, aos novos costumes.
Quanto mais envelhecem os pais, mais os filhos assumem o controle.
Quando eles estão bem idosos, já não decidem o que querem fazer ou o que desejam comer e beber.
Raramente são ouvidos, quando tentam fazer algo diferente.
Passeios, comida, roupas, médicos - tudo passa a ser decidido pelos filhos.
E, no entanto, os pais estão apenas idosos.
Mas continuam em plena posse da mente.
Por que então desrespeitá-los?
Por que tratá-los como se fossem inúteis ou crianças sem discernimento?
Sim, é o que a maioria dos filhos faz.
Dá ordens aos pais, trata-os como se não tivessem opinião ou capacidade de decisão.
E, no entanto, no fundo daqueles olhos cercados de rugas, há tanto amor.
Naquelas mãos trêmulas, há sempre um gesto que abençoa, acaricia.

* * *
A cada dia que nasce, lembre-se, está mais perto o dia da separação.
Um dia, o velho pai já não estará aqui.
O cheiro familiar da mãe estará ausente.
As roupas favoritas para sempre dobradas sobre a cama, os chinelos em um canto qualquer da casa.
Então, valorize o tempo de agora com os pais idosos.
Paciência com eles quando se recusam a tomar os remédios, quando falam interminavelmente sobre doenças, quando se queixam de tudo.
Abrace-os apenas, enxugue suas lágrimas, ouça suas histórias (mesmo que sejam repetidas) e dê-lhes atenção, afeto...
Acredite: dentro daquele velho coração brotarão todas as flores da esperança e da alegria.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Veneza, prá sempre no meu coração!


Cheguei à Veneza (essa frase infelizmente não consegue transmitir com fidelidade o impacto que é “se chegar em Veneza”) às 6:00 hs de uma manhã muito chuvosa, o que me fez pensar no fracasso da empreitada de 8:00 hs espremida na cabine de um trem italiano, de Munique, na Alemanha direto à Itália, numa noite cheia de percalços.
Saí da estação de Munique às 11:00 hs da noite, já cansada pelo dia inteiro de andanças na terra da Oktoberfest. Foi magnífico, andar sem eira nem beira por uma Munique cheia de atrações, muito tradicionalista e muito cosmopolita... mas estava exausta. Bem, Munique fica para outro post. A missão agora é tentar explicar “o que é se estar em Veneza”.

Viajei toda a noite numa cabine de um trem não muito confortável, e sempre quando achava que estava pronta prá dormir, vinha um maluco abrir a porta da cabine prá procurar lugar vago, ou o cara do ticket para ver a passagem, ou o pessoal da imigração na fronteira querendo ver Passaporte, e tinha um bêbado que não deixava ninguém no vagão dormir. Foi um caos a noite toda. Tentando novamente dormir, com frio, percebi que estávamos atravessando as montanhas, provavelmente os Alpes italianos. Não dormi mais, precisava ver o que se passava pela janela, pena a máquina fotográfica estar na mala, sob a cama, estava muito sonolenta para pegá-la. Daí quando estava quase amanhecendo, um susto. O trem iria se separar do vagão em que dormíamos para seguir para Verona, e isso em minutos. Céus!! Precisava atravessar dezenas de vagões para não desviar do destino!!!Não queria ir para a cidade de Romeu e Julieta! Queria Veneza! Foi um arrumar de mala, vestir roupa, calçar meia, sapato, corrida por entre passageiros e minutos desesperadores! Mas quem entende italiano prá decifrar a mensagem que por certo correu o trem à noite...?? No fim deu tudo certo, cheguei ao vagão certo toda descabelada, arrastando mala, sem lavar o rosto, sem tomar café, com a adrenalina à mil, mas aliviada.
Prá qualquer um que tenha grana para cobrir freqüentemente um passeio à Europa, Veneza é só mais um lugar do roteiro. Prá mim, simples mortal assalariada, que parcelou a passagem em 10 x, levou 2 malas de roupa velha, R$ 800,00 no bolso prá 20 dias de Europa, dar de cara com a ponte Rialto, principal acesso à Veneza para quem chega de trem, foi uma visão do paraíso, de alguém que encontra o nirvana, o prazer absoluto, uma lembrança que me enche os olhos de lágrima ainda hoje, 10 anos depois. Impacto sem igual. Nem sei como cheguei na Rialto, saltei do trem “daquele jeito meio hippie” mas já em estado de graça, apesar do tempo pesadíssimo e prestes a cair um temporal, acho que fui andando em nuvens. Só parei na estação para fazer o câmbio (trocar Marko por Lira), e ir ao banheiro para me “recuperar” da viagem. Coloquei a mochila nas costas com o essencial para aquele dia e tudo o mais desapareceu: turistas, trens, nuvens pesadas, “só” tinha tudo aquilo pela frente, a eterna Veneza!!! Viajante de “1ª vez em Veneza” não sabe que, logo que se sai do trem, já se tem o pé, os olhos e o coração naquela maravilha toda, ninguém te avisa, te prepara o espírito. É na veia mesmo e com Nitroglicerina pura. Nenhum cartaz com os dizeres “Desembarque e deslumbre-se no choque!” Se o coração agüentar, você é duplamente vencedor. Deu prá sentir o baque??
Parei, respirei fundo, me belisquei para “deixar a moeda cair”, sem saber por onde começar a me deslumbrar primeiro. Deu vontade de dar um grito, desses de comercial psicodélico. Eu estava ali, sonhando um sonho de menina, assistindo o ir e vir frenético dos vaporetos em águas muito verdes do Mar Adriático, e pontes, muitas pontes, palacetes, hotéis maravilhosos, charmosas pizzarias ao largo do Grande Canal, gôndolas com condutores em suas indefectíveis camisetas listradas, estreitas ruas perdidas em labirintos, fabriquetas de cristal de Murano, lojas repletas de máscaras para o famoso Carnaval, e história... Quase podia ouvir os doces acordes do violino de Vivaldi, soando por aquelas infinitas ruelas impregnadas de beleza e mansidão. Ele deve ter sido muito feliz morando por aqui, pensava eu. Arrulhos e revoadas de pombos quebravam o silêncio da paz que eu estava sentindo. Estava feliz como nunca fui até então. A sensação do sonho realizado é boa demais, e o meu, pelo visto, era um sonho em grande estilo.Se algum turista fotografou o ponto onde eu estava, por certo saí na foto dele com a boca aberta, com cara de boba-alegre...
A chuva finalmente caiu, pesada com seus prometidos raios e trovões, desesperando turistas e vendedores em suas barracas de lembranças. Eu, que adoro chuva, cheguei ao êxtase. Me abriguei numa lanchonete, pedi uma fatia de pizza, uma água mineral sentei numa mesinha e fiquei ali, calmamente, observando cada detalhe daquela cidade, me convencendo de que não se tratava de nenhum sonho, de que eu estava realmente em Veneza, em uma de suas lanchonetes, saboreando a vista, uma pizza e a chuva caindo sem dó sobre as calçadas daquele lugar ímpar. Tudo absolutamente perfeito!
Quando finalmente a chuva cessou, o sol voltou tímido, aproveitei para andar e andar, agradecendo aos céus por todo aquele presente. Atravessei todas as pontes, conheci a Piazza de San Marco com sua magnífica catedral e seus milhares de pombos, ladeei o "Gran Canal" e seu grande movimento de barcos e vaporetos, visitei uma loja de cristais onde vi lindas peças sendo fabricadas na hora. Passei pela Ponte dos Suspiros e ela ainda é tão linda e intrigante que os suspiros agora são de quem a vê de fora, não mais dos prisioneiros que outrora por ela passavam e suspiravam na sua última visão da cidade. Os mesmos suspiros que eu dou quando a saudade daquele dia me aperta o coração.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Conselho não se dá, mas esse aí é 10 !!!!



Viver

Acho a maior graça.
Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere...
Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos. Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal para minha saúde. Prazer faz muito bem. Dormir me deixa 0 km. Ler um bom livro faz-me sentir novo em folha. Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois rejuvenesço uns cinco anos. Viagens aéreas não me incham as pernas; incham-me o cérebro, volto cheio de idéias. Brigar me provoca arritmia cardíaca. Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago. Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano. E telejornais... os médicos deveriam proibir - como doem!
Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo, faz muito bem; você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada. Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde. E passar o resto da vida sem coragem para pedir desculpas, pior ainda. Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou mussarela que previna.
Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, uau!
Cinema é melhor pra saúde do que pipoca. Conversa é melhor do que piada. Exercício é melhor do que cirurgia. Humor é melhor do que rancor. Amigos são melhores do que gente influente. Economia é melhor do que dívida. Pergunta é melhor do que dúvida. Sonhar é melhor do que nada.

Luis Fernando Veríssimo
Boa Semana!

domingo, 11 de abril de 2010

Meu amor pela poesia de Neruda


(casa de Neruda em Isla Negra-Chile)
Amo Pablo Neruda. Há muitos anos, quando li seu primeiro verso, me entreguei.
Tudo o que escreveu me toca, me transporta para perto do mar, para dias frios envoltos em neblina da bruma marinha e ao cheiro de sal . A visão do mar de Isla Negra com seus casebres de telhado molhado e redes de pesca penduradas pela janela, se forma em minha mente e o vejo, em passos lentos, talvez com o coração a sangrar, caminhando sobre a escura areia daquela ilha esquecida da costa do Chile, onde o mar cinzento e triste, traz lentamente algas e gaivotas à praia. Longe, consigo ver os barcos dos pescadores sacolejando ao sabor das ondas, amarrados no pier fustigado pelos ventos. Neruda amava aquela ilha. Era seu refúgio, onde se encontrava e se perdia, tomado pelas grandes paixões de sua vida: poesia e solidão. Quem assistiu ao filme "O Carteiro e o Poeta" sabe do que estou falando. Foi, de longe, o filme mais lindo que já vi. Pablo Neruda desperta meu lado melancólico, mas nem por isso menos importante para a formação do meu equilíbrio. É a mistura do mar e o amor na medida exata.

"Não te quero a não ser porque te quero
e de te querer a não te querer chego
e de te esperar quando não te espero
passa meu coração do frio ao fogo.

Só te quero porque é a ti quem quero,
sem fim te odeio, e com ódio te peço,
e a medida do amor meu, viajeiro,
é não te ver e amar-te como um cego.

Talvez consuma a luz de janeiro,
seu raio cruel, meu coração inteiro,
de mim roubando a chave do sossego.

Nessa história só eu morro
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor, a sangue e fogo." (Cien sonetos de amor)

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"Pensei em morrer, senti de perto o frio,
e de quanto vivi só a ti eu deixava:
tua boca era o meu dia e minha noite terrestres
e tua pele a república fundada por teus beijos.

Nesse instante se terminaram os livros,
a amizade, os tesouros sem trégua acumulados,
a casa tranparente que tu e eu construímos:
tudo deixou de ser, menos os teus olhos.

Porque o amor, enquanto a vida nos acossa,
é simplesmente uma onda alta sobre as ondas
mas ai quando a morte nos vem tocar a porta.

só existe teu olhar para tanto vazio,
só a tua claridade para não seguir sendo,
somente o teu amor para encerrar a sombra."(Cien sonetos de amor)
das palavras que não falam simplesmente, que dizem.


O carteiro Mário Ruppolo (Massimo Troisi) com poeta Pablo Neruda (Philippe Noiret) falando de metáforas diante do mar no filme "O carteiro e o poeta".

terça-feira, 6 de abril de 2010

A casa da minha "Ôma"- 12 - fim


Hoje, a velha casa não existe mais. A falta do espírito preservador dos meus primos a desmontou e transformou em casa de defumar bacon!!!.... Minha tia e ôma também já nos deixaram. No lugar da casa, hoje está uma casa de madeira sem pintura, cheia de crianças loiras, primos distantes que provavelmente ainda brincam nos pastos onde outrora brincava de “revoar sobre as colinas”, embora acredite, o riacho não tenha mais a mesma pureza. A propriedade continua a mesma, estive por lá há alguns anos, mas a luz elétrica chegou. Provavelmente existam geladeiras, TVs, freezers para preservar as carnes do gado e aves abatidos bem como todos os confortos que o progresso traz. Mas, bem sei que, o que o progresso traz em conforto, leva em magia e inocência.

Oxalá um dia volte a rever o sítio dos Bublitz, e leve minha filha prá correr e “revoar” livremente naquelas colinas, descalça, naqueles pastos sem fim, para subir em árvores, correr atrás dos patos e galinhas, tomar banho no riacho, comer tangerinas até se fartar, envolvida no verde que ainda toma conta do lugar. E se fizer alguma travessura, sei que meu tio Rainold, de onde estiver, vai se lembrar de mim e dar boas gargalhadas.

A casa da minha "Ôma" - 11 - Páscoa


Não lembro de ter passado algum Natal por lá, mas as Páscoas daquele tempo merecem um capítulo especial.
Meses antes, minha querida tia Laura, que era deficiente vocal, confirmava com a minha mãe, do jeito dela, sobre o dia em que chegaríamos para a Páscoa. Elas eram irmãs gêmeas e se entendiam bem. Era o que bastava para ela começar a recolher ovos de ganso para colocar nos ninhos prá mim. Eram ovos grandões, lindos, que ela esvaziava, provavelmente para alguma omelete. Com todo o cuidado, fazia um furinho na extremidade, lavava e secava, depois pintava com tinta extraída de papel crepom colorido. Aí, colocava minúsculas balinhas coloridas ou amendoim açucarado como recheio, fechava com papel de seda e ficava nos esperando, impaciente. Minha mãe aproveitava e levava alguns chocolates no formato de coelho, tudo muito bem escondido de mim, afinal, a festa do coelho era coisa para criança curtir na fantasia mesmo.
Na véspera da Páscoa chegávamos à Raphael. Meu tio Ingo sempre vinha nos encontrar no outro lado do rio, onde tínhamos que atravessar sobre um tronco de árvore, achatado de propósito, para as pessoas andarem sobre ele. Eu morria de medo pois o rio tinha as águas geladas, muitas pedras e a água corria velozmente sob nossos pés, mas, meu tio sempre me levava no colo até a outra margem. Minha mãe vinha logo em seguida. Atravessávamos um caminho por entre um milharal, subíamos uma suave ladeira por entre muitas árvores bem ao lado da casa da ôma e lá estava ela: tia Laura, varrendo o quintal de chão batido, não deixando uma folhinha, um cisco sequer no chão que no fim, mais parecia um piso de assoalho encerado, de tão limpo. Ela sentia um prazer especial naquilo, o fazia como ritual. Penso que era para celebrar a alegria do nosso reencontro, a festa da Páscoa, o espírito da inocência. Assim que nos avistava, largava tudo, secava as mãos no avental e saía correndo ao nosso encontro para ajudar-nos com as bolsas e sacolas, na maior alegria.
Depois dos abraços, adentrávamos a casa, fresquinha de brisa, com o som do tique-taque do relógio, o fogão à lenha fumegante, com sua panela de ferro cheinha de frango borbulhando no molho, e mais batatas doces e arroz. Almoçávamos e como sempre, tinha o papo dos adultos para pôr em dia. Eu deitava num tapete de pele de carneiro, no chão ao lado delas e pegava no sono ali mesmo, embalada pelo mesmo tique-taque daquele relógio antigão, do ranger das dobradiças das janelas e pelas conversas intermináveis. Acordava com minha mãe passando pano no chão, fazendo a limpeza para a Páscoa. À tarde, minha tia Laura arrumava a palha para os ninhos onde o “coelho” poria os ovos e chocolates. Tudo era festa e magia, inteiramente patrocinada pela tia Laura.
Na manhã da Páscoa eu percebia que ela ficava de longe, prá lá e prá cá, só esperando que eu acordasse, mais ansiosa que eu. Como era um tempo bem frio, eu gostava de ficar mais tempo sob aquela coberta de penas gostosa. Mas, ante a ansiedade dela, levantava, sem entender direito o que estava acontecendo. Era quando eu vislumbrava ninhos e mais ninhos de palha pela casa toda e pelo quintal limpo, repletos de ovos coloridos e chocolates. Era a visão do paraíso! Era uma felicidade só!! Minha e da minha tia, me vendo feliz. O coelho não havia se esquecido de mim!!! Ela era tão pura e inocente como uma criança, e a minha alegria era a dela. Esperava-me com uma cestinha na mão, feita de papelão e toda forrada de papel crepom para que eu colocasse os ovos nela o cada ninho encontrado. E eu fazia esse trabalho de pronto, afinal, procurar ninhos com ovos pela casa era uma diversão e tanto. Foram Páscoas inesquecíveis e felizes. Numa dessas ocasiões, ela colocou num dos ninhos, uma galinha de brinquedo, que soltava ovinhos de plástico branco quando a apertávamos. Foi o êxtase!!! Nunca vou esquecer disso. Os únicos brinquedos que eu tinha na vida até ali eram duas bonecas velhas, e receber aquela galinha amarela soltando ovos foi o máximo!!!Era essa...

A casa da minha "Ôma" - 10 - Travessuras


Lembro da minha maior travessura daqueles tempos. A vítima, novamente, foi meu tio Rainold, ou melhor, no final fui eu...
Meu tio cuidava com esmero especial de uma parreira de uvas no seu quintal. Era uma parreira espetacular, com lindos cachos de uvas verdes pendurados, quase uma pintura, um quadro de natureza-morta. Um dia, não sei por que cargas d´água, eu e minha amiga Magrit Braatz resolvemos cortar todos os cachos de uvas dessa parreira, e, escondidas na roça da ôma, ficamos comendo as uvas verdes, bem longe de todos. O detalhe é que as uvas ainda estavam muito verdes, mas comemos alguns cachos mesmo assim. O resto jogamos fora, pois era muita coisa para comer e estavam muito azedas. Quando voltamos, a confusão já estava armada no sítio. Meu tio colerizado, minha mãe e a ôma tentando acalmá-lo, e todos tentando descobrir o malfeitor, o mentor dessa façanha. Minha mãe me interpelou e eu neguei veementemente, por medo. Ela também achou que não tinha sido eu, pois nunca fora de mentir nem de fazer tamanha travessura. Então, estava acima de qualquer suspeita. Mas eis que a noite chegou, com suas estrelas, grilos e vaga-lumes. E eu, muito enjoada, nauseada. Ninguém entendia esse mal-estar (devia ser a consciência pesada). Foi quando minha ôma me colocou na cama e eu não agüentando mais, vomitei. E lá estavam as uvas do meu tio, verdinhas, quase inteiras, no chão do quarto, no meio do vômito. Morri de vergonha perante minha mãe e minha ôma. Tive que confessar à elas o delito e pedir perdão ao meu tio. Ele ficou de mal comigo um tempo, mas depois ele teve que passar outro sufoco comigo. Coitado... Foi no dia em que a máquina de cortar trato virou sobre mim. Todos estavam naquela conversa de fim de tarde de sempre, jantando, mas eu, afoita por ajudar meu tio que não estava no estábulo, fui cortar o trato sozinha para fazer uma surpresa à ele quando chegasse. Não deu outra, no entusiasmo de virar aquela roda imensa, veio tudo por cima de mim. A máquina era grande, mas por sorte, era mecânica, movida manualmente. Foi aquela gritaria, minha e de todo mundo. Mais uma travessura homérica.
Teve o dia em que eu e, novamente minha amiga Magrit, resolvemos capturar todos os sapos do mundo num saco (prá que isso??). Por todos os lados havia sapos-boi dormindo em algum canto. Nos estábulos, sob a casa, entre folhagens, troncos ocos, no pasto, no rancho. Acho que capturamos uns 30 sapos no saco, naquele dia. Consigo sentir hoje, a euforia de pegar cada sapo, era uma gritaria só, mas...muito divertido!!... E como não estávamos satisfeitas apenas em capturá-los, resolvemos soltá-los todos no meio da parentada reunida. Era gente pulando prá todo lado e nós, certamente, levamos aquela “sapecada” de nossas mães. Depois dessa, sosseguei, para alívio do meu tio e de todos.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Os pais envelhecem


Os pais envelhecem (do http://luzdeluma.blogspot.com)

Talvez a mais rica, forte e profunda experiência da caminhada humana seja a de ter um filho.
Plena de emoções, por vezes angustiantes, ser pai ou mãe é provar os limites que constituem o sal e o mel do ato de amar alguém.
Quando nascem, os filhos comovem por sua fragilidade, seus imensos olhos, sua inocência e graça.
Basta vê-los para que o coração se alargue em riso e cor.
Um sorriso é capaz de abrir as portas de um paraíso.
Eles chegam à nossa vida com promessas de amor incondicional.
Dependem de nosso amor, dos cuidados que temos.
E retribuem com gestos que enternecem.
Mas os anos passam e os filhos crescem.
Escolhem seus próprios caminhos, parceiros e profissões.
Trilham novos rumos, afastam-se da matriz.
O tempo se encarrega da formação de novas famílias.
Os netos nascem.
Envelhecemos.
E, então, algo começa a mudar.
Os filhos já não têm pelos pais aquela atitude de antes.
Parece que agora só os ouvem para fazer críticas, reclamar, apontar falhas.
Já não brilha mais nos olhos deles aquela admiração da infância e isso é uma dor imensa para os pais.
Por mais que disfarcem, todo pai e mãe percebem as mínimas faíscas no olho de um filho.
É quando pais, idosos, dizem para si mesmos:
Que fiz eu? Por que o encanto acabou? Por que meu filho já não me tem como seu herói particular?
Apenas passaram-se alguns anos e parece que foram esquecidos os cuidados e a sabedoria que antes era referência para tudo na vida.
Aos poucos, a atitude dos filhos se torna cada vez mas impertinente.
Praticamente não ouvem mais os conselhos.
A cada dia demonstram mais impaciência.
Acham que os pais têm opiniões superadas, antigas.
Pior é quando implicam com as manias, os hábitos antigos, as velhas músicas.
E tentam fazer os velhos pais se adaptarem aos novos tempos, aos novos costumes.
Quanto mais envelhecem os pais, mais os filhos assumem o controle.
Quando eles estão bem idosos, já não decidem o que querem fazer ou o que desejam comer e beber.
Raramente são ouvidos, quando tentam fazer algo diferente.
Passeios, comida, roupas, médicos - tudo passa a ser decidido pelos filhos.
E, no entanto, os pais estão apenas idosos.
Mas continuam em plena posse da mente.
Por que então desrespeitá-los?
Por que tratá-los como se fossem inúteis ou crianças sem discernimento?
Sim, é o que a maioria dos filhos faz.
Dá ordens aos pais, trata-os como se não tivessem opinião ou capacidade de decisão.
E, no entanto, no fundo daqueles olhos cercados de rugas, há tanto amor.
Naquelas mãos trêmulas, há sempre um gesto que abençoa, acaricia.

* * *
A cada dia que nasce, lembre-se, está mais perto o dia da separação.
Um dia, o velho pai já não estará aqui.
O cheiro familiar da mãe estará ausente.
As roupas favoritas para sempre dobradas sobre a cama, os chinelos em um canto qualquer da casa.
Então, valorize o tempo de agora com os pais idosos.
Paciência com eles quando se recusam a tomar os remédios, quando falam interminavelmente sobre doenças, quando se queixam de tudo.
Abrace-os apenas, enxugue suas lágrimas, ouça suas histórias (mesmo que sejam repetidas) e dê-lhes atenção, afeto...
Acredite: dentro daquele velho coração brotarão todas as flores da esperança e da alegria.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Veneza, prá sempre no meu coração!


Cheguei à Veneza (essa frase infelizmente não consegue transmitir com fidelidade o impacto que é “se chegar em Veneza”) às 6:00 hs de uma manhã muito chuvosa, o que me fez pensar no fracasso da empreitada de 8:00 hs espremida na cabine de um trem italiano, de Munique, na Alemanha direto à Itália, numa noite cheia de percalços.
Saí da estação de Munique às 11:00 hs da noite, já cansada pelo dia inteiro de andanças na terra da Oktoberfest. Foi magnífico, andar sem eira nem beira por uma Munique cheia de atrações, muito tradicionalista e muito cosmopolita... mas estava exausta. Bem, Munique fica para outro post. A missão agora é tentar explicar “o que é se estar em Veneza”.

Viajei toda a noite numa cabine de um trem não muito confortável, e sempre quando achava que estava pronta prá dormir, vinha um maluco abrir a porta da cabine prá procurar lugar vago, ou o cara do ticket para ver a passagem, ou o pessoal da imigração na fronteira querendo ver Passaporte, e tinha um bêbado que não deixava ninguém no vagão dormir. Foi um caos a noite toda. Tentando novamente dormir, com frio, percebi que estávamos atravessando as montanhas, provavelmente os Alpes italianos. Não dormi mais, precisava ver o que se passava pela janela, pena a máquina fotográfica estar na mala, sob a cama, estava muito sonolenta para pegá-la. Daí quando estava quase amanhecendo, um susto. O trem iria se separar do vagão em que dormíamos para seguir para Verona, e isso em minutos. Céus!! Precisava atravessar dezenas de vagões para não desviar do destino!!!Não queria ir para a cidade de Romeu e Julieta! Queria Veneza! Foi um arrumar de mala, vestir roupa, calçar meia, sapato, corrida por entre passageiros e minutos desesperadores! Mas quem entende italiano prá decifrar a mensagem que por certo correu o trem à noite...?? No fim deu tudo certo, cheguei ao vagão certo toda descabelada, arrastando mala, sem lavar o rosto, sem tomar café, com a adrenalina à mil, mas aliviada.
Prá qualquer um que tenha grana para cobrir freqüentemente um passeio à Europa, Veneza é só mais um lugar do roteiro. Prá mim, simples mortal assalariada, que parcelou a passagem em 10 x, levou 2 malas de roupa velha, R$ 800,00 no bolso prá 20 dias de Europa, dar de cara com a ponte Rialto, principal acesso à Veneza para quem chega de trem, foi uma visão do paraíso, de alguém que encontra o nirvana, o prazer absoluto, uma lembrança que me enche os olhos de lágrima ainda hoje, 10 anos depois. Impacto sem igual. Nem sei como cheguei na Rialto, saltei do trem “daquele jeito meio hippie” mas já em estado de graça, apesar do tempo pesadíssimo e prestes a cair um temporal, acho que fui andando em nuvens. Só parei na estação para fazer o câmbio (trocar Marko por Lira), e ir ao banheiro para me “recuperar” da viagem. Coloquei a mochila nas costas com o essencial para aquele dia e tudo o mais desapareceu: turistas, trens, nuvens pesadas, “só” tinha tudo aquilo pela frente, a eterna Veneza!!! Viajante de “1ª vez em Veneza” não sabe que, logo que se sai do trem, já se tem o pé, os olhos e o coração naquela maravilha toda, ninguém te avisa, te prepara o espírito. É na veia mesmo e com Nitroglicerina pura. Nenhum cartaz com os dizeres “Desembarque e deslumbre-se no choque!” Se o coração agüentar, você é duplamente vencedor. Deu prá sentir o baque??
Parei, respirei fundo, me belisquei para “deixar a moeda cair”, sem saber por onde começar a me deslumbrar primeiro. Deu vontade de dar um grito, desses de comercial psicodélico. Eu estava ali, sonhando um sonho de menina, assistindo o ir e vir frenético dos vaporetos em águas muito verdes do Mar Adriático, e pontes, muitas pontes, palacetes, hotéis maravilhosos, charmosas pizzarias ao largo do Grande Canal, gôndolas com condutores em suas indefectíveis camisetas listradas, estreitas ruas perdidas em labirintos, fabriquetas de cristal de Murano, lojas repletas de máscaras para o famoso Carnaval, e história... Quase podia ouvir os doces acordes do violino de Vivaldi, soando por aquelas infinitas ruelas impregnadas de beleza e mansidão. Ele deve ter sido muito feliz morando por aqui, pensava eu. Arrulhos e revoadas de pombos quebravam o silêncio da paz que eu estava sentindo. Estava feliz como nunca fui até então. A sensação do sonho realizado é boa demais, e o meu, pelo visto, era um sonho em grande estilo.Se algum turista fotografou o ponto onde eu estava, por certo saí na foto dele com a boca aberta, com cara de boba-alegre...
A chuva finalmente caiu, pesada com seus prometidos raios e trovões, desesperando turistas e vendedores em suas barracas de lembranças. Eu, que adoro chuva, cheguei ao êxtase. Me abriguei numa lanchonete, pedi uma fatia de pizza, uma água mineral sentei numa mesinha e fiquei ali, calmamente, observando cada detalhe daquela cidade, me convencendo de que não se tratava de nenhum sonho, de que eu estava realmente em Veneza, em uma de suas lanchonetes, saboreando a vista, uma pizza e a chuva caindo sem dó sobre as calçadas daquele lugar ímpar. Tudo absolutamente perfeito!
Quando finalmente a chuva cessou, o sol voltou tímido, aproveitei para andar e andar, agradecendo aos céus por todo aquele presente. Atravessei todas as pontes, conheci a Piazza de San Marco com sua magnífica catedral e seus milhares de pombos, ladeei o "Gran Canal" e seu grande movimento de barcos e vaporetos, visitei uma loja de cristais onde vi lindas peças sendo fabricadas na hora. Passei pela Ponte dos Suspiros e ela ainda é tão linda e intrigante que os suspiros agora são de quem a vê de fora, não mais dos prisioneiros que outrora por ela passavam e suspiravam na sua última visão da cidade. Os mesmos suspiros que eu dou quando a saudade daquele dia me aperta o coração.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Conselho não se dá, mas esse aí é 10 !!!!



Viver

Acho a maior graça.
Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere...
Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos. Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal para minha saúde. Prazer faz muito bem. Dormir me deixa 0 km. Ler um bom livro faz-me sentir novo em folha. Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois rejuvenesço uns cinco anos. Viagens aéreas não me incham as pernas; incham-me o cérebro, volto cheio de idéias. Brigar me provoca arritmia cardíaca. Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago. Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano. E telejornais... os médicos deveriam proibir - como doem!
Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo, faz muito bem; você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada. Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde. E passar o resto da vida sem coragem para pedir desculpas, pior ainda. Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou mussarela que previna.
Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, uau!
Cinema é melhor pra saúde do que pipoca. Conversa é melhor do que piada. Exercício é melhor do que cirurgia. Humor é melhor do que rancor. Amigos são melhores do que gente influente. Economia é melhor do que dívida. Pergunta é melhor do que dúvida. Sonhar é melhor do que nada.

Luis Fernando Veríssimo
Boa Semana!

domingo, 11 de abril de 2010

Meu amor pela poesia de Neruda


(casa de Neruda em Isla Negra-Chile)
Amo Pablo Neruda. Há muitos anos, quando li seu primeiro verso, me entreguei.
Tudo o que escreveu me toca, me transporta para perto do mar, para dias frios envoltos em neblina da bruma marinha e ao cheiro de sal . A visão do mar de Isla Negra com seus casebres de telhado molhado e redes de pesca penduradas pela janela, se forma em minha mente e o vejo, em passos lentos, talvez com o coração a sangrar, caminhando sobre a escura areia daquela ilha esquecida da costa do Chile, onde o mar cinzento e triste, traz lentamente algas e gaivotas à praia. Longe, consigo ver os barcos dos pescadores sacolejando ao sabor das ondas, amarrados no pier fustigado pelos ventos. Neruda amava aquela ilha. Era seu refúgio, onde se encontrava e se perdia, tomado pelas grandes paixões de sua vida: poesia e solidão. Quem assistiu ao filme "O Carteiro e o Poeta" sabe do que estou falando. Foi, de longe, o filme mais lindo que já vi. Pablo Neruda desperta meu lado melancólico, mas nem por isso menos importante para a formação do meu equilíbrio. É a mistura do mar e o amor na medida exata.

"Não te quero a não ser porque te quero
e de te querer a não te querer chego
e de te esperar quando não te espero
passa meu coração do frio ao fogo.

Só te quero porque é a ti quem quero,
sem fim te odeio, e com ódio te peço,
e a medida do amor meu, viajeiro,
é não te ver e amar-te como um cego.

Talvez consuma a luz de janeiro,
seu raio cruel, meu coração inteiro,
de mim roubando a chave do sossego.

Nessa história só eu morro
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor, a sangue e fogo." (Cien sonetos de amor)

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"Pensei em morrer, senti de perto o frio,
e de quanto vivi só a ti eu deixava:
tua boca era o meu dia e minha noite terrestres
e tua pele a república fundada por teus beijos.

Nesse instante se terminaram os livros,
a amizade, os tesouros sem trégua acumulados,
a casa tranparente que tu e eu construímos:
tudo deixou de ser, menos os teus olhos.

Porque o amor, enquanto a vida nos acossa,
é simplesmente uma onda alta sobre as ondas
mas ai quando a morte nos vem tocar a porta.

só existe teu olhar para tanto vazio,
só a tua claridade para não seguir sendo,
somente o teu amor para encerrar a sombra."(Cien sonetos de amor)
das palavras que não falam simplesmente, que dizem.


O carteiro Mário Ruppolo (Massimo Troisi) com poeta Pablo Neruda (Philippe Noiret) falando de metáforas diante do mar no filme "O carteiro e o poeta".

terça-feira, 6 de abril de 2010

A casa da minha "Ôma"- 12 - fim


Hoje, a velha casa não existe mais. A falta do espírito preservador dos meus primos a desmontou e transformou em casa de defumar bacon!!!.... Minha tia e ôma também já nos deixaram. No lugar da casa, hoje está uma casa de madeira sem pintura, cheia de crianças loiras, primos distantes que provavelmente ainda brincam nos pastos onde outrora brincava de “revoar sobre as colinas”, embora acredite, o riacho não tenha mais a mesma pureza. A propriedade continua a mesma, estive por lá há alguns anos, mas a luz elétrica chegou. Provavelmente existam geladeiras, TVs, freezers para preservar as carnes do gado e aves abatidos bem como todos os confortos que o progresso traz. Mas, bem sei que, o que o progresso traz em conforto, leva em magia e inocência.

Oxalá um dia volte a rever o sítio dos Bublitz, e leve minha filha prá correr e “revoar” livremente naquelas colinas, descalça, naqueles pastos sem fim, para subir em árvores, correr atrás dos patos e galinhas, tomar banho no riacho, comer tangerinas até se fartar, envolvida no verde que ainda toma conta do lugar. E se fizer alguma travessura, sei que meu tio Rainold, de onde estiver, vai se lembrar de mim e dar boas gargalhadas.

A casa da minha "Ôma" - 11 - Páscoa


Não lembro de ter passado algum Natal por lá, mas as Páscoas daquele tempo merecem um capítulo especial.
Meses antes, minha querida tia Laura, que era deficiente vocal, confirmava com a minha mãe, do jeito dela, sobre o dia em que chegaríamos para a Páscoa. Elas eram irmãs gêmeas e se entendiam bem. Era o que bastava para ela começar a recolher ovos de ganso para colocar nos ninhos prá mim. Eram ovos grandões, lindos, que ela esvaziava, provavelmente para alguma omelete. Com todo o cuidado, fazia um furinho na extremidade, lavava e secava, depois pintava com tinta extraída de papel crepom colorido. Aí, colocava minúsculas balinhas coloridas ou amendoim açucarado como recheio, fechava com papel de seda e ficava nos esperando, impaciente. Minha mãe aproveitava e levava alguns chocolates no formato de coelho, tudo muito bem escondido de mim, afinal, a festa do coelho era coisa para criança curtir na fantasia mesmo.
Na véspera da Páscoa chegávamos à Raphael. Meu tio Ingo sempre vinha nos encontrar no outro lado do rio, onde tínhamos que atravessar sobre um tronco de árvore, achatado de propósito, para as pessoas andarem sobre ele. Eu morria de medo pois o rio tinha as águas geladas, muitas pedras e a água corria velozmente sob nossos pés, mas, meu tio sempre me levava no colo até a outra margem. Minha mãe vinha logo em seguida. Atravessávamos um caminho por entre um milharal, subíamos uma suave ladeira por entre muitas árvores bem ao lado da casa da ôma e lá estava ela: tia Laura, varrendo o quintal de chão batido, não deixando uma folhinha, um cisco sequer no chão que no fim, mais parecia um piso de assoalho encerado, de tão limpo. Ela sentia um prazer especial naquilo, o fazia como ritual. Penso que era para celebrar a alegria do nosso reencontro, a festa da Páscoa, o espírito da inocência. Assim que nos avistava, largava tudo, secava as mãos no avental e saía correndo ao nosso encontro para ajudar-nos com as bolsas e sacolas, na maior alegria.
Depois dos abraços, adentrávamos a casa, fresquinha de brisa, com o som do tique-taque do relógio, o fogão à lenha fumegante, com sua panela de ferro cheinha de frango borbulhando no molho, e mais batatas doces e arroz. Almoçávamos e como sempre, tinha o papo dos adultos para pôr em dia. Eu deitava num tapete de pele de carneiro, no chão ao lado delas e pegava no sono ali mesmo, embalada pelo mesmo tique-taque daquele relógio antigão, do ranger das dobradiças das janelas e pelas conversas intermináveis. Acordava com minha mãe passando pano no chão, fazendo a limpeza para a Páscoa. À tarde, minha tia Laura arrumava a palha para os ninhos onde o “coelho” poria os ovos e chocolates. Tudo era festa e magia, inteiramente patrocinada pela tia Laura.
Na manhã da Páscoa eu percebia que ela ficava de longe, prá lá e prá cá, só esperando que eu acordasse, mais ansiosa que eu. Como era um tempo bem frio, eu gostava de ficar mais tempo sob aquela coberta de penas gostosa. Mas, ante a ansiedade dela, levantava, sem entender direito o que estava acontecendo. Era quando eu vislumbrava ninhos e mais ninhos de palha pela casa toda e pelo quintal limpo, repletos de ovos coloridos e chocolates. Era a visão do paraíso! Era uma felicidade só!! Minha e da minha tia, me vendo feliz. O coelho não havia se esquecido de mim!!! Ela era tão pura e inocente como uma criança, e a minha alegria era a dela. Esperava-me com uma cestinha na mão, feita de papelão e toda forrada de papel crepom para que eu colocasse os ovos nela o cada ninho encontrado. E eu fazia esse trabalho de pronto, afinal, procurar ninhos com ovos pela casa era uma diversão e tanto. Foram Páscoas inesquecíveis e felizes. Numa dessas ocasiões, ela colocou num dos ninhos, uma galinha de brinquedo, que soltava ovinhos de plástico branco quando a apertávamos. Foi o êxtase!!! Nunca vou esquecer disso. Os únicos brinquedos que eu tinha na vida até ali eram duas bonecas velhas, e receber aquela galinha amarela soltando ovos foi o máximo!!!Era essa...

A casa da minha "Ôma" - 10 - Travessuras


Lembro da minha maior travessura daqueles tempos. A vítima, novamente, foi meu tio Rainold, ou melhor, no final fui eu...
Meu tio cuidava com esmero especial de uma parreira de uvas no seu quintal. Era uma parreira espetacular, com lindos cachos de uvas verdes pendurados, quase uma pintura, um quadro de natureza-morta. Um dia, não sei por que cargas d´água, eu e minha amiga Magrit Braatz resolvemos cortar todos os cachos de uvas dessa parreira, e, escondidas na roça da ôma, ficamos comendo as uvas verdes, bem longe de todos. O detalhe é que as uvas ainda estavam muito verdes, mas comemos alguns cachos mesmo assim. O resto jogamos fora, pois era muita coisa para comer e estavam muito azedas. Quando voltamos, a confusão já estava armada no sítio. Meu tio colerizado, minha mãe e a ôma tentando acalmá-lo, e todos tentando descobrir o malfeitor, o mentor dessa façanha. Minha mãe me interpelou e eu neguei veementemente, por medo. Ela também achou que não tinha sido eu, pois nunca fora de mentir nem de fazer tamanha travessura. Então, estava acima de qualquer suspeita. Mas eis que a noite chegou, com suas estrelas, grilos e vaga-lumes. E eu, muito enjoada, nauseada. Ninguém entendia esse mal-estar (devia ser a consciência pesada). Foi quando minha ôma me colocou na cama e eu não agüentando mais, vomitei. E lá estavam as uvas do meu tio, verdinhas, quase inteiras, no chão do quarto, no meio do vômito. Morri de vergonha perante minha mãe e minha ôma. Tive que confessar à elas o delito e pedir perdão ao meu tio. Ele ficou de mal comigo um tempo, mas depois ele teve que passar outro sufoco comigo. Coitado... Foi no dia em que a máquina de cortar trato virou sobre mim. Todos estavam naquela conversa de fim de tarde de sempre, jantando, mas eu, afoita por ajudar meu tio que não estava no estábulo, fui cortar o trato sozinha para fazer uma surpresa à ele quando chegasse. Não deu outra, no entusiasmo de virar aquela roda imensa, veio tudo por cima de mim. A máquina era grande, mas por sorte, era mecânica, movida manualmente. Foi aquela gritaria, minha e de todo mundo. Mais uma travessura homérica.
Teve o dia em que eu e, novamente minha amiga Magrit, resolvemos capturar todos os sapos do mundo num saco (prá que isso??). Por todos os lados havia sapos-boi dormindo em algum canto. Nos estábulos, sob a casa, entre folhagens, troncos ocos, no pasto, no rancho. Acho que capturamos uns 30 sapos no saco, naquele dia. Consigo sentir hoje, a euforia de pegar cada sapo, era uma gritaria só, mas...muito divertido!!... E como não estávamos satisfeitas apenas em capturá-los, resolvemos soltá-los todos no meio da parentada reunida. Era gente pulando prá todo lado e nós, certamente, levamos aquela “sapecada” de nossas mães. Depois dessa, sosseguei, para alívio do meu tio e de todos.