PERFEITO!!
..."estar turista é um estado transitório, desconfortável, porém inevitável. Por mais que vc não queira, no dia em que vc pisa num país estranho, numa cidade que desconhece, num lugar cujas regras não domina, perdoe a má palavra, vc é turista!
turista tem um ar parvo, bobo-alegre, ávido, bem disposto, pronto pra tudo, animadão. Gente que está ali para aproveitar de tudo, ao máximo. Acorda cedo e dorme tarde. Topa todas, bate palma nas músicas típicas, se veste mal, tênis velho, moletom, para ficar o dia todo confortável. Bebe demais na praia, passa mal, arrisca passos que nunca dançou, experimenta comidas e bebidas diferentes, se deixa queimar demais ao sol, compra cds de artistas locais que nunca vai ouvir, faz tererê no cabelo, arrisca tatuagens de henna, compra imãs de geladeira, camisetas, canecas de mau gosto… Lembranças daquele momento da vida em que ele não estava oficialmente vivendo a própria vida. Férias tem um ar carnavalesco, de libertação para alguns. E para outros, tem um peso pesado, do dinheiro economizado, arduamente, para pagar aqueles dias de alforria, antes de voltar à escravidão que esta vida contemporânea de liberdades nos impôs.
Estou turista. Atônita com a quantidade de comida que vai pro lixo na farra do boi das churrascarias, com o tantão de doces incomíveis do café colonial, das 220 espécies de comida alemã que servem na mesma refeição, com a sequência de fondues, de sopas, tudo servido na mesa, da mesa pro lixo. O excesso, o abuso, o muito, o transbordamento de todos os desejos de férias de tudo. All you can eat, tudo o que você aguentar, dizem os americanos, cheios de bacons e gelatinas azuis no café da manhã. De férias, a galera encara até gelatina azul.
Pessoas que jamais se encontrariam passam um dia inteiro juntas, dentro de uma van, forçando um contato amistoso, afinado pela situação comum a todos: ser turista. Cearenses confraternizam com gaúchos que confraternizam com mineiros de São Paulo. Todos falam super bem das suas cidades, exibindo seus dotes, como se fossem filhas prontas a casar. Todos invejam os cariocas, menos os baianos, que têm a maior auto-estima do país. Todos se amam dentro de uma van de excursão de dia inteiro. Alguns trocam emails e telefones, tiram fotos abraçados e fazem juras de amizade que jamais se concretizarão. No almoço onde o vinho é liberado, passam do ponto, em nome das férias. Não importa. Naquele momento, coração aberto, todos estão prontos e livres.
E se vivêssemos, dia após dia, com o desprendimento parvo das férias, com o coração aberto ao novo, alma leve e disponibilidade para experimentar o que não conhecemos, curiosos, sem julgamentos, com a maior boa vontade dos mundos?
Quero olhar o mundo com olhos de turista. Turista da minha própria vida, do meu cotidiano, sem nunca perder o olhar primeiro. Feliz, embriagada de sol demais e cheia de sede de liberdade, aventura e confraternização.
Devia ser sempre assim: nós, turistas. A vida, férias."
(fonte: http://avantderniere.wordpress.com)
domingo, 2 de junho de 2013
Turista Intencional....
PERFEITO!!
..."estar turista é um estado transitório, desconfortável, porém inevitável. Por mais que vc não queira, no dia em que vc pisa num país estranho, numa cidade que desconhece, num lugar cujas regras não domina, perdoe a má palavra, vc é turista!
turista tem um ar parvo, bobo-alegre, ávido, bem disposto, pronto pra tudo, animadão. Gente que está ali para aproveitar de tudo, ao máximo. Acorda cedo e dorme tarde. Topa todas, bate palma nas músicas típicas, se veste mal, tênis velho, moletom, para ficar o dia todo confortável. Bebe demais na praia, passa mal, arrisca passos que nunca dançou, experimenta comidas e bebidas diferentes, se deixa queimar demais ao sol, compra cds de artistas locais que nunca vai ouvir, faz tererê no cabelo, arrisca tatuagens de henna, compra imãs de geladeira, camisetas, canecas de mau gosto… Lembranças daquele momento da vida em que ele não estava oficialmente vivendo a própria vida. Férias tem um ar carnavalesco, de libertação para alguns. E para outros, tem um peso pesado, do dinheiro economizado, arduamente, para pagar aqueles dias de alforria, antes de voltar à escravidão que esta vida contemporânea de liberdades nos impôs.
Estou turista. Atônita com a quantidade de comida que vai pro lixo na farra do boi das churrascarias, com o tantão de doces incomíveis do café colonial, das 220 espécies de comida alemã que servem na mesma refeição, com a sequência de fondues, de sopas, tudo servido na mesa, da mesa pro lixo. O excesso, o abuso, o muito, o transbordamento de todos os desejos de férias de tudo. All you can eat, tudo o que você aguentar, dizem os americanos, cheios de bacons e gelatinas azuis no café da manhã. De férias, a galera encara até gelatina azul.
Pessoas que jamais se encontrariam passam um dia inteiro juntas, dentro de uma van, forçando um contato amistoso, afinado pela situação comum a todos: ser turista. Cearenses confraternizam com gaúchos que confraternizam com mineiros de São Paulo. Todos falam super bem das suas cidades, exibindo seus dotes, como se fossem filhas prontas a casar. Todos invejam os cariocas, menos os baianos, que têm a maior auto-estima do país. Todos se amam dentro de uma van de excursão de dia inteiro. Alguns trocam emails e telefones, tiram fotos abraçados e fazem juras de amizade que jamais se concretizarão. No almoço onde o vinho é liberado, passam do ponto, em nome das férias. Não importa. Naquele momento, coração aberto, todos estão prontos e livres.
E se vivêssemos, dia após dia, com o desprendimento parvo das férias, com o coração aberto ao novo, alma leve e disponibilidade para experimentar o que não conhecemos, curiosos, sem julgamentos, com a maior boa vontade dos mundos?
Quero olhar o mundo com olhos de turista. Turista da minha própria vida, do meu cotidiano, sem nunca perder o olhar primeiro. Feliz, embriagada de sol demais e cheia de sede de liberdade, aventura e confraternização.
Devia ser sempre assim: nós, turistas. A vida, férias."
(fonte: http://avantderniere.wordpress.com)
E O 2º ORKONTRO - RJ VIROU "ENCONTRO DE AMIGOS VIRTUAIS"
FOI DIMAIIIIIIXXXXXXXXXXXX!!!!!!!!!!
KARIN E JOSEPH VIERAM DE TAMM,NA ALEMANHA, PATY VEIO DE SANTOS/SP, NÉIA VEIO DA BAHIA, ANNE E FAMÍLIA VIERAM DE ITABORAÍ/RJ, JUNTE-SE A ISSO, TÂNIA DE SÃO GONÇALO/RJ, CIDA E ANDRÉA COM SUAS FAMILIAS, + LIA E AQUILES, DO RIO, E O QUERIDO CASAL CLÁUDIA E SYDNEY DA TIJUCA/RJ...ROLOU COMIDINHAS DELICIOSAS, BOLO, FUTEBOL, MIMOS, PRESENTES, PAPO GOSTOSO, DECLARAÇÕES DE AMOR-AMIGO, PERDÃO, ABRAÇOS MIL, A EMOÇÃO DE VER O VIRTUAL SE TRANSFORMAR EM REAL, UM DIA FOI POUCO PRÁ GENTE APROVEITAR UM POUCO DO BOM DE CADA UM, FICOU UM GOSTINHO DE QUERO-MAIS!!!














sexta-feira, 31 de maio de 2013
OS BOLOS DA TIA IOLANDA
Na década de 70, quando eu ainda não tinha esse horroroso tom de louro-cinza nos cabelos, mas sim, cachos dourados da cor das espigas de trigo amarrados em laço de veludo azul, e nas rádios esgoelavam-se Beatles e Rolling Stones; as famílias costumavam visitar-se todo final de semana, via de regra, a família do meu pai, e na maioria esmagadora, íamos na casa dos que moravam em Blumenau. Tínhamos tios em Luis Alves, Ibirama, Encano, Ascurra, mas muito longe para uma “passadinha” típica de domingo. Na Blumenau daqueles tempos, não havia televisão na maioria das casas, nem qualquer outra grande opção para diversão na cidade, além de dois cinemas, salões de bailes e domingueiras. Mas isso era coisa para adultos e solteiros... E nessas visitas de domingo, automaticamente já se marcavam as próximas reuniões, festas ou visitas, e não era raro que mais de um núcleo da família se visitassem ao mesmo tempo. Meus irmãos raramente iam junto nessas incursões, pois no auge da adolescência, queriam mais era ir ao cinema, às festinhas do Clube Subtenentes ou ficar em casa ensaiando suas músicas ao violino e gaita, as músicas de bandinhas alemãs que animariam as festas lá de casa, quando nós fôssemos a bola da vez. E lá íamos nós, engomados nas nossas “becas” de domingo, à espera do ônibus, de boa vontade pelo meu pai e não raro, à contragosto pela minha mãe. Mas era tradição, e rotineira.
E qual era o roteiro:
Por ser mais perto da nossa casa, íamos muito na casa do Tio Nicolau. Tinham uma casa muito velha, no bairro Água Verde, toda tomada de cupins, com tudo que tinha dentro caindo aos pedaços também, mais parecendo uma casa mal assombrada.
Eram dois viciados. Minha tia, esquelética, vivia em função de fumar um cigarro atrás do outro, cuidar do boteco que tinham na frente da casa, num cômodo reformado, e de gritar com meus dois primos, quando as traquinagens ultrapassavam o ponto de inércia dela. Seus cabelos excessivamente brancos apesar dela ser relativamente jovem, sempre estavam de mal com os ventos. Ela parecia mais uma personagem saída dos contos de fada, não exatamente na figura da princesa... e não por nada, o nome dela era Alma... Eu não entendia muito o porquê daquelas nossas visitas, porque sempre voltávamos prá casa “defumados em nicotina” e com os cabelos cheios do “subproduto” dos cupins. Meu tio, sempre recostado na cadeira de balanço que ficava ao lado da janela da copa, cuja asa direita pendia pela falta de parafusos em uma das dobradiças superiores, estava sempre à ouvir algum jogo no rádio SEMP. No caso, o preferido era o clássico entre Palmeiras e Olímpico, times de elite blumenauenses, há muito extintos. Vestido com uma camisa do Flamengo que mal lhe cobria o volumoso abdômen, parecia nem notar nossa presença, só acenava distraidamente, absorto e focado no radialista que punha toda a emoção naquelas narrações esfusiantes e irreais, no som do seu radinho de pilha. Ele socava a mesa, xingava o juiz, a mãe do juiz, os jogadores, até o gandula caso atrasasse a reposição da bola. Só mesmo quando tocava o apito final é que ele nos percebia na totalidade. Ninguém se importava com isso, ficávamos de papo com minha tia, que sabia conduzir uma conversa animada como ninguém, cheia de histórias e “detalhes sórdidos” de todo o clã, em especial, dos Haskel do Garcia. Daí, meu tio finalmente se juntava à nós, contando detalhes do jogo, por vezes irritado com o resultado, por vezes feliz com a vitória do Olímpico, e eu adorava ouví-lo dando aquela risada que mais parecia a do Papai Noel, um sonoro ho-ho-ho!
Minha mãe ficava abismada que minha tia conseguisse fazer o “café das visitas” sem largar um dedo sequer do cigarro aceso, e com sorte, não éramos sorteados com cinzas ou alguma bituca nas xícaras. Ela era viciada no cigarro, e ele, no futebol, e acredito que esses vícios, somados ao trabalho no boteco, era o que lhes impedia de dar um upgrade na casa. Mas tanto eles como aquela casa velha são riquezas nas minhas lembranças de infância, pois foi lá que passei um dos natais mais memoráveis da minha vida, com Papai Noel de verdade, com meus primos acuados num canto da sala, apavorados... mas isso é assunto para outra história...
Outras vezes visitávamos o Tio Albert, na Fortaleza, bairro distante do centro, mas onde gostávamos de ir por se localizar num vale belíssimo, cercado pelo verde dos pastos e com uma imensa mata de eucaliptos e pinheiros a perfumar o ar. O sítio desse meu tio ficava no canto onde as montanhas se abraçavam, e a casa, estrategicamente situada aos pés delas. Era muito silencioso ali, só se ouvia o canto dos pássaros e o vento revolvendo as matas. Mais parecia o endereço da paz. O caminho para chegar à casa era ladeado de margaridas, caprichosa e pacientemente plantadas pela minha tia Anne, e eu achava aquilo esplêndido, pois vivia repleto de borboletas. Meu tio, um simpático gordinho de suspensórios, bochechas rosadas e de apertados olhos azuis, nos aguardava na porteira que limitava o quintal da casa e dos pastos. O quintal era repleto de flores multicoloridas, plantadas em belos canteiros, tudo tão bem cuidado, que dava gosto ficar olhando e admirando a generosidade da natureza naquela profusão de cores. A casa era antiga mas bem arrumada, com sua varanda cheia de gerânios nas floreiras, a cozinha fresca pela brisa que soprava pela janela, tremulando nas cortininhas de xadrez bordado e o cheiro dos eucaliptos envolvia tudo. O quintal era pontilhado de aves domésticas, mas eu gostava era de chegar lá e tocar o terror nos patos. Meus pais como sempre, se reuniam com meus tios em intermináveis conversas na sala. Ficava imaginando o que tanto eles conversavam, como conseguiam se divertir passando o dia todo falando! Pensava nisso, ao mesmo tempo em que corria atrás dos patos, aves desengonçadas e engraçadas mas que me encantavam. Me era proibido sair para os pastos pois o touro mais bravo do meu tio estava solto e eu, até hoje, morro de medo desses bichos. Depois de correr a manhã toda atrás daquelas pobres aves, sem primos para brincar, sem poder correr nos pastos, acabava ficando entediada. Naquela casa não havia brinquedos porque meus tios nunca tiveram filhos. O que compensava ir lá eram os almoços da minha tia, verdadeiros banquetes repletos de pratos da cozinha alemã, temperados no agridoce. Marreco recheado, farofa de frutas, chucrute com anis, nhoque de batata doce dourado na manteiga e farinha de rosca, picles de beterrabas e pepino na folha de uva. E as sobremesas: ovos nevados boiando num creme rosado feito de amoras, sagu de vinho com calda de baunilha, calda de carambola com pudim de chocolate... imperdível!!! Saíamos de lá rolando...
E tinha a vez de ir na tia Walinka, também no Água Verde, pouco mais distante do Tio Nicolau, mas relativamente perto para irmos à pé. Era nossa “tia revendedora da Avon”. A casa cheirava à “Charisma” e” Toque de Amor”, conhecidas fragrâncias da perfumaria famosa. Estava nesse ofício desde que a conhecíamos e era o que ela mais gostava de fazer para driblar as ausências do meu tio Oswaldo, indo de casa em casa com sua sacola de revendedora. Meu tio era dono de uma boate em Ascurra, pequena cidade do interior catarinense e raramente estava em casa, pois o movimento maior do “estabelecimento” era nos finais de semana. Nessas visitas, meu pai nunca ia, por conta da ausência do meu tio, por não ter com quem manter assuntos e conversas de homem. Eu adorava ir lá porque tinha 3 primas e 1 primo quase da mesma idade que eu, e brincávamos de gastar a sola do pé. Meu primo era mais “na dele”, não ficava muito conosco, mas gostava da nossa visita porque minha mãe sempre levava bolo de queijo prá ele. Era um pequeno chantagista, falando que só gostava de ir na nossa casa por conta do bolo de queijo da minha mãe, e ela tendo ouvido isso, nunca o decepcionava. Conosco, essa chantagem funcionou do contra, pois ele ganhou o direito de ficar sempre de escanteio nas brincadeiras. Um dia, minha tia chegou lá em casa chorando, e depois de uma longa conversa com meus pais, deixou minhas primas e meu primo lá em casa, num ato desesperado, decidida a ir atrás do meu tio e quem sabe, trazê-lo à realidade da vida, fazê-lo lembrar que tinha uma família. As ausências dele estavam cada vez maiores e as presenças mais espaçadas, era mister que se tomasse alguma atitude drástica. Minha mãe se apavorou na iminência de ficar com 5 crianças em idade escolar em casa, com responsabilidade quadruplicada e com mais 4 bocas para alimentar, mas não poderia negar esse favor à minha tia, pois tinha pena e sabia o que ela passava tendo que criar e educar 4 crianças, praticamente sem ajuda. Eu fiquei feliz da vida, pensando que tinha ganhado 3 irmãs e mais 1 irmão, e que eles ficariam lá em casa prá sempre. Mas algumas semanas depois, minha tia voltava, sozinha, entristecida, prá buscá-los. O planejado não dera certo. Deixou alguns perfumes prá nós como agradecimento e se foi. Minha ilusão de ter uma família gigante cairia por terra e a vida voltaria ao seu curso normal.
Mas o programa mais legal, o que mais gostávamos dessas visitas domingueiras era de ir na casa do tio Fridolin e da Tia Iolanda, no Garcia. Quando minha mãe anunciava com indisfarçável sarcasmo: “arrumem-se que hoje vamos na casa dos Barões !!!”, já sabíamos que iríamos ter um dia atípico.
Esse núcleo da família do meu pai era caricato. Não se sabe bem porque, se achavam a “nata” da sociedade blumenauense, com um braço na realeza, só porque detinham o único automóvel de toda a família Haskel na época, e mesmo assim o aparato ficava mofando, estacionado infinitamente na garagem, pois ninguém da casa sabia dirigir. Minha prima Madalena tinha pavor até de chegar perto daquela geringonça e meu primo Osvaldo não se interessava, pois sabia que se aprendesse a dirigir, teria que levar todo mundo prá lá e prá cá contra a sua vontade. Foi esperto. Quando meu tio resolveu que enfim, tirar a carta, foi do Garcia até na Fortaleza, na casa do meu tio Albert – prá se mostrar, claro – todo em 1ª marcha, e tanto forçou o motor que o carro pegou fogo quando chegou ao seu destino! Motivo de chacota por décadas... Minha tia Alma soube do incidente e foi a pilhéria do ano, a família toda ria de se acabar. No alto do seu nariz empinado, logo compraram outro carro e calaram o riso de todo mundo. Ponto prá eles.
Se achavam os contemporâneos por manterem um filho na Alemanha. Para a sociedade blumenauense dos anos 60-70, sem informação suficiente, achava-se que era o poder dos poderes quem pudesse mandar um parente prá estudar ou trabalhar na Europa, mas o detalhe sinistro, o que ninguém esclarecia, era de que a Alemanha contratava estrangeiros para fazer o trabalho sujo da reconstrução do pós-guerra, serviços que eles mesmos não queriam fazer, e sabe-se lá o que isso poderia significar... mas meus tios rolavam em cima dessa bravata. Meu primo, mais esnobe ainda que os pais, dificilmente os teria deixado cientes de que na realidade carregava tijolos, limpava latrinas, faxinava obras na dita “promissora” Alemanha capitalista.
Alheios à isso, saboreavam o status de terem uma casa duplex numa área livre de enchentes (curioso é que isso, ainda hoje, é um status velado em Blumenau...). Era uma casa confortável, realmente, com suntuosas cortinas de veludo vermelho na sala, lustres de cristal, móveis de jacarandá, tapetes peludos, e eletrodomésticos modernos de ultima geração na cozinha (em 1970 traduzia-se “última geração” como sendo ter liquidificador e batedeira de bolos...). Também gabavam-se de ter uma casa de praia em Camboriú, mas o que ficamos sabendo é que o imóvel ficava tão longe da praia propriamente dita que se alguém quisesse se refrescar nas cálidas águas do Atlântico sul, teria que ir de ônibus ou taxi. A “baixa casta” da família, provavelmente por despeito ou inveja mesmo, se divertia, deitava e rolava comentando o fato.
Chegar lá e ver a coleção de postais que o antipático e narigudo primo Nelson acabara de mandar das frias terras germânicas, era programa obrigatório para as visitas. Fazia parte do roteiro... Aí tínhamos que aguentar postal por postal, foto por foto, toda a falácia em torno dos grandes feitos do “Nelsinho” no trabalho, saber o que o “Nelsinho” comprou de bárbaro, o que a Alemanha tinha de legal e diferente do Brasil, e blá-blá, blá... Meu pai fazia vistas grossas diante dessa galhardia toda, mas minha mãe torcia o nariz quando a coisa tomava proporções tais que ficava em vias de minar o “enfastiômetro” dela. Mas tudo isso fazia parte da espera para o grande momento, a apoteose da visitação. Prá mim, o divertido era poder me esbaldar de brincar naquela sala aveludada, correr entre aqueles móveis, afundar nos tapetes, mas sempre sob o olhar atônito da minha tia, disfarçado de sorriso amarelado. Aí, numa pausa, ia ver os postais e fotos com neve do meu primo esquisito do estrangeiro. Mas o melhor, o que realmente nos levava até lá, o que nos fazia aguentar todo aquele pavoneamento, os ares superiores, o peito estufado dos meus tios, eram as maravilhas em camadas que minha tia trazia orgulhosamente da cozinha: os seus famosos bolos confeitados. A fama desses bolos corria solta pelo bairro e todo mundo da família já tinha provado e aprovado com louvor e olhos esbugalhados. Não fossem tão bons, duvido que alguém quisesse de fato voltar a visitar a “Família Pavão”. Minha tia não era profissional, teve o privilégio de nascer com esse talento inato. Nunca trabalhou na função porque talvez se achasse “madame” demais prá trabalhar fora. E meu tio alimentava essa soberba dela porque do alto do seu discurso machista, não conseguia imaginar a mulher trabalhando para os outros e quem sabe, o inadmissível, ganhando mais dinheiro que ele. Enfim, uma pena. Além de belíssimos, essas maravilhas em pedaços exalavam um aroma, que confeitaria “classuda” nenhuma conseguia imitar, nem com aqueles balcões lotados das mais finas iguarias.
Era um aroma misto de levíssima massa branca misturada à pura fava de baunilha, com as nuances do aroma de chantilly e leves notas de limão persa, que se espalhava no ar como a mais fina fragrância francesa. Tão singular que conseguíamos adivinhar seu recheio. Minha tia os trazia à mesa com um sorrisinho de satisfação no canto da boca, pois era segura do seu talento e do sucesso que faziam. A mesa posta para o café, prá mim, era digna dos mais suntuosos palacetes da realeza. Tortas, bolos, folheados açucarados, biscoitinhos recheados diversos, tudo saído das mesmas mãos de fada e servidos em belíssima porcelana Schmidt, item indispensável na lista de casamento daqueles tempos. A “parte rude e tosca” da família, que éramos nós e todo o resto do clã, avançávamos sem pudor naquelas fatias de paraíso. Me recordo até hoje, de um bolo magistral, todo salpicado de balinhas de chocolate colorido (protótipo do M&M de hoje). Era para o aniversário da minha prima Madalena. Muito alto, devia ter umas 10 camadas de recheio, e vinha todo pomposo no alto de um prato de cristal próprio, com pedestal. Envolto em generosa camada de levíssimo chocolate maltado, era todo bom, no visual e uma festa para o paladar. Quando meu prato foi servido, pude experimentar a mais sublime sensação gastronômica da vida! A massa perfumada, leve, com recheio de creme de ameixas pretas e nata batida com baunilha, tinha um quê de encantamento indefinível. As bolinhas coloridas explodiam na boca, liberando um creme achocolatado que até hoje nunca experimentei e do qual nunca esqueci, está marcado na minha memória gustativa prá sempre.
Ao fim da visita, com os ouvidos doendo, levávamos prá casa, como prêmio da “confeiteira”, generosos pedaços daquelas delícias, finamente embrulhadas em guardanapos de papel rendados. Eles não davam ponto sem nó, sempre fazendo-nos lembrar de nossa condição inferior e de sua superioridade, fosse num pedaço de papel afrescalhado como o que envolvia as sobras de bolo. Mas nem ligávamos...tudo nos faria relembrar e nos daria motivo para passarmos horas ao redor da mesa do café no dia seguinte, rindo e confabulando sobre eles, do modo de vida deles, e de como eram emproados, cheios de si, bravateiros, e das inegáveis maravilhas servidas naquela visita.
Quando seria a próxima? Dependeria dos cartões enviados pelo tímido e fanhoso primo Nelson.
Tânia Haskel – outubro/2012
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
...E O MARIDO VAI VIAJAR...
Postei isso um dia numa comunidade de esposas de militar da Marinha, e parece que gostaram, é a abertura do tópico "E o marido (noivo, namorido) vai viajar..."
Fala das agruras e delícias da família de militar, seus lados bons e ruins:
E O MARIDO VAI VIAJAR (NO CASO, DE NAVIO...POR DIAS E DIAS, ÀS VEZES MESES!)
É UMA NOTÍCIA DE ARREPIAR, NÃO?
MAS EXISTEM OS LADOS BONS E RUINS.
OS BONS: O DINDIN, A CASA FICA ARRUMADA, A GELADEIRA CHEIA, SOMOS DONAS DO CONTROLE REMOTO NOVAMENTE, A CERVEJA É SÓ NOSSA, O CARTÃO DE CRÉDITO LIBERADO, PODER FICAR O SÁBADO TODO NO SHOPPING VENDO VITRINE SEM TER QUE SE PREOCUPAR COM HORA DE ALMOÇO (FILHO COME NO MC DONALD´S, FELICÍSSIMO), NEM COM ROUPA LAVADA E PASSADA (NO CASO, MACACÃO E FARDA), AÍ O COMPUTADOR (INTERNET) É SÓ NOSSO, O CARRO TAMBÉM, E QUANDO CHEGA DE VIAGEM É UM "AMOR LOUCO E SELVAGEM", ...E POR AÍ VAI...
O LADO RUIM: O "AMOR LOUCO E SELVAGEM" DO RETORNO SÓ DURA 1 DIA, FILHO COM SAUDADE FICA COM FEBRE, NÃO TER QUEM LEVE O LIXO PRÁ RUA, A CAMA FICA FRIA E ESPAÇOSA DEMAIS, A CASA FICA IMENSA E VAZIA, A "PULGA ATRÁS DA ORELHA" É CONSTANTE, A FALTA DE NOTÍCIAS, A SAUDADE, A "SECA", ENFIM, VIAGEM DE MARIDO (NAMORADO) É COISA DE CRIAR EXPECTATIVAS, BOAS E RUINS. CADA QUAL PESE OS SEUS LADOS, DEPENDENDO DO AMOR E DA FALTA QUE NOS FAZ ESSE MILITAR QUE ESCOLHEMOS PARA TER AO NOSSO LADO.
O PUDIM DE NATAL
O Pudim de Natal
Tinha muito gosto quando meus pais decidiam querer visitar os primos de Ibirama, melhor, meu coração disparava de contentamento! Os Harbs eram parentes diretos de minha mãe, e de tudo que lembro das temporadas passadas por lá, era simplesmente onde eu mais me divertia na vida. Tinha uma prima (Ilca)e três primos (Ivo, Inor e Guinter) que parecia terem sido feitos da mesma química que eu, pois era bom demais estar com eles, brincando ou simplesmente conversando, era tudo de uma sintonia desconcertante, peças de uma engrenagem perfeitamente ajustada, como irmãos de pais diferentes. Quanto mais tempo ficava com eles, mais tempo queria estar.
Meus tios eram mestres na arte de receber, apesar da vida simples e da casa modesta, éramos recebidos como reis, entre abraços e lágrimas de alegria genuína, e sempre com mesa farta.
A casa, na verdade, era funcional, dos patrões do meu tio Ingo, funcionário mais antigo da serraria “Jost”. Ficava num terreno nos fundos das pilhas de madeira da serraria. Aquela madeira, simetricamente empilhada em vários lotes numerados, serviu por toda nossa infância como esconderijo nas brincadeiras de pique-esconde e hoje, onde quer que eu vá e sinta o cheiro de farelo de madeira, me transporto para aqueles tempos, para aquela casa, para a companhia dos meus primos.
Dessa vez, a visita era muito mais especial, pois estávamos próximos ao Natal e nesse ano as festas seriam passadas lá. Felicidade plena prá mim!!!
Chegamos num sábado à tarde, 23 de dezembro, aniversário do meu pai. Como o rio passava nos fundos da casa, meu tio sabendo da nossa vinda (pois minha mãe havia mandado carta com antecedência avisando da nossa chegada), já estava tarrafeando com meus primos pelas margens do rio com a velha canoa feita por ele mesmo, na pequena oficina que tinha nos fundos da casa. Estavam em busca dos cascudos grandes, carnudos, peixes de sabor suave, sem espinhas, que ele sabia, todos adoravam. À noite, a peixada estava garantida, e nesse dia foi um jantar especial em comemoração ao aniversário do meu pai. Quando ele chegou com a rede cheia de peixes, a alegria estava completa. Minha tia fritava os cascudos envoltos em farinha de mandioca, no fogão à lenha e nós, esfomeados por uma tarde inteira de brincadeiras, esperávamos com a barriga roncando, a hora de saborear essa iguaria, com muito caldo de cascudo, pirão branco e arroz. A conversa ao redor da mesa era animada e cheia de novidades.
A árvore de Natal já estava montada na sala, repleta de bolinhas de vidro coloridas e floquinhos de algodão. Depois da janta, sentávamos no chão da sala prá ficarmos admirando aquela árvore simples, mas de tanto valor para nosso espírito infantil. Foi quando minha tia anunciou que na noite da véspera de Natal faria o seu famoso Pudim de Framboesas com molho de creme holandês. Um grande e retumbante ÔBAAAAAA soou na sala, pois sabíamos o que esse “framboesas” significava, e minha tia ria do nosso contentamento, pois esse pudim era receita de família e só era feito em grandes ocasiões. Para meus tios, as nossas visitas, o aniversário de meu pai daquele ano e o Natal significavam essas datas especiais. Como era bom ser tão querido assim...
Quando acordei na véspera de Natal, a cozinha já estava funcionando à pleno vapor, panelas fumegantes cheias de batatas, macarrão caseiro, beterrabas para os picles, tudo estava em andamento em aromas que só se sentiam numa data como esta. Um grande peru ardia no forno, e a forma do famoso pudim já estava untada com açúcar cristal, pronta para receber os ingredientes. A água do banho-maria também já estava esquentando e o melhor ingrediente, as framboesas, ainda estavam por ser colhidas, e isso era o que de melhor estava por vir nessa manhã. Significava que podíamos pegar as bicicletas no rancho e ir até a chácara do tio Rudolf colher as frutinhas mágicas, aquelas que abrilhantariam nossa mesa de Natal em forma de uma magnífica sobremesa. Tinham que ser colhidas frescas, para o sucesso da empreitada. E com o coração na boca de ansiedade, colocávamos sacolinhas no guidom das bicicletas e saíamos para a missão. Ah, como era bom percorrer com liberdade aquele caminho quase deserto às margens do rio! Se Papai Noel não viesse hoje, aquela colheita já seria meu presente de Natal, tamanho o prazer que era dominar uma geringonça daquelas numa estradinha de terra que mais parecia um tapete, ladeada por paisagens de tirar o fôlego, sentir o vento nos cabelos. Era seguida pela minha prima e primos, como loucos, em gritaria de plena felicidade. Ficávamos em êxtase, o dia era mágico, tudo o que acontecesse seria de pura alegria, todas as cores do mundo passariam pelos nossos olhos e corações, numa vibração de plenitude. Como era bom ser criança e poder ver a vida com essa simplicidade, ser feliz com tão pouca coisa. Mas enfim, chegamos à chácara. Abrimos a grande porteira e deixamos as bicicletas encostadas nos mourões de madeira da cerca e adentramos a chácara à pé. Logo avistamos lá longe, a casa de tijolinhos, com a chaminé fumegando, provavelmente nos preparativos da ceia de Natal também. O tio Rudolf não estava em casa, tinha ido na venda comprar anzóis e nos avisado em casa mais cedo, mas deixara recado sobre a nossa vinda e propósitos. Como meus primos já sabiam onde ficava a plantação, de longe deram um aceno para alguém que estava na varanda, prováveis visitas para o Natal daquela casa, no que foram correspondidos e nos dirigimos prá lá, com as nossas sacolas. Passamos por plantações de videiras, aipim, milho, batatas-doces e amendoim. Um grande pé de nêsperas à nossa frente nos convidava a provar de seus frutos, com seus grandes cachos pendendo à nosso alcance. Sentamos um pouco para descansar, pois o caminho era ladeira acima, e nos fartamos com as nêsperas madurinhas. As framboesas ficavam um pouco mais adiante. Poucos passos e já podíamos avistar a longa fileira de parreiras com seus frutos arroxeados pendendo entre suas folhas. Que maravilha! Sacamos de nossas sacolas e começamos a colhê-las, com o cuidado de não deixar cair nas roupas, pois manchavam facilmente. Depois de colher e comer, óbvio, voltamos calmamente pelo mesmo caminho, saudamos a mesma pessoa da varanda e seguimos para nossas “Monaretas” dos anos 70. Prá mim, andar de bicicleta, era uma felicidade à parte porque eu nunca tive bicicleta, apenas um triciclo que foi roubado quando ainda não tinha 5 anos. Aprendi à me equilibrar na “magrela” com amigas da rua. A volta prá casa eu queria curtir mais, pedalar mais devagar para saborear cada metro da paisagem, absorver toda a energia possível daquele dia perfeito. Adorava ver as floreiras repletas de gerânios róseos e vermelhos nas janelas nas casas de tijolinhos à vista e seus jardins, o gado ruminando calmamente atrás das cercas de arame farpado com seus mourões musguentos, o rio que corria sereno ao nosso lado, ouvir o canto dos pássaros, avistar as suaves colinas esmeralda, de pastagens cheias de alvas ovelhinhas, as majestosas árvores centenárias, aquela paisagem toda que felizmente nunca mudava e que me deixava sempre deslumbrada cada vez que ia lá. Mais algumas centenas de metros de diversão e estávamos em casa, com sacolas abarrotadas de frutas. Minha tia que já nos esperava, bateu o creme com as frutas e despejou na forma, que foi direto para o forno, junto ao peru. O creme holandês era feito à parte.
Ainda tivemos tempo para um rápido e divertido banho de rio e almoçamos. Que manhã ensolarada fora essa. Esse era o verdadeiro sol da vida. Estar com quem amamos, num lugar tão espetacular, repleto de belezas, e em plena véspera de Natal... como poderíamos ser mais felizes?
Mas quando se é criança, as sequências de momentos felizes são feitas de pequeníssimos intervalos, e a noite de NATAL chegara. Mal tivemos tempo de nos recuperar daquela manhã magnífica e já estava a noite nos esperando com mais golpes de felicidade. Como conter no peito tanto sentimento? As velas da árvore de Natal foram acesas, enquanto cantávamos canções natalinas alemãs, nos entreolhando com cumplicidade e carinho, e os poucos e simples presentes eram distribuídos por um Papai Noel bem suspeito, pois meu tio sumira antes e aparecera depois da passagem do bom velhinho... e a hora da ceia nos trazia ao ato final e triunfante do dia. Ceia com mesa cheia e alegre, servida de arroz, macarronada caseira, salada de batatas, picles, o peru esplendidamente assado e recheado, e os pequenos e roxos frutos da nossa “colheita feliz” transformados orgulhosamente num rosado e reluzente Pudim de Natal. Como ponto alto da festa, estava lá, tombado sobre um belo prato de porcelana, com o molho holandês a escorrer-lhe pelos flancos, era tudo um espetáculo para os olhos, paladar e espírito! E o pisca-pisca na varanda nos fazendo lembrar que aquilo não era um sonho, que estávamos entre pessoas que amávamos, em volta de uma mesa, celebrando a união, a saúde, em plena harmonia e comunhão, exatamente como Cristo gostaria que fosse sua festa de aniversário.
A felicidade reside em momentos simples, tornados especiais por pessoas especiais. Tenhamos a capacidade de ajustar o foco neles e buscar nos pequenos acontecimentos o entendimento sobre esse presente de Deus para nós, A VIDA! E essa vida pode ter gosto de mel e fruta tirada do pé. Pois é nas coisas simples que mora a nossa essência perdida. Encontros, sorrisos, pequenas gentilezas, natureza, abraço, agradecimento, amizade, reconhecimento, sentimentos puros, tudo é de graça, e o que é mais simples e singelo, nos traz mais perto do Criador.
Louvemos a Cristo e Feliz Natal!!
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Pérolas do facebook...
Hora de reverenciar meu time do coração!!!
Sou
tricolor de coração. Sou do clube tantas vezes campeão. Fascina pela
sua disciplina,O fluminense me domina.Eu tenho amor ao tricolor!
Salve o querido pavilhão, Das três cores que traduzem tradição:
A paz, a esperança e o vigor. Unido e forte pelo esporte, Eu sou é tricolor!.....
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domingo, 2 de junho de 2013
Turista Intencional....
PERFEITO!!
..."estar turista é um estado transitório, desconfortável, porém inevitável. Por mais que vc não queira, no dia em que vc pisa num país estranho, numa cidade que desconhece, num lugar cujas regras não domina, perdoe a má palavra, vc é turista!
turista tem um ar parvo, bobo-alegre, ávido, bem disposto, pronto pra tudo, animadão. Gente que está ali para aproveitar de tudo, ao máximo. Acorda cedo e dorme tarde. Topa todas, bate palma nas músicas típicas, se veste mal, tênis velho, moletom, para ficar o dia todo confortável. Bebe demais na praia, passa mal, arrisca passos que nunca dançou, experimenta comidas e bebidas diferentes, se deixa queimar demais ao sol, compra cds de artistas locais que nunca vai ouvir, faz tererê no cabelo, arrisca tatuagens de henna, compra imãs de geladeira, camisetas, canecas de mau gosto… Lembranças daquele momento da vida em que ele não estava oficialmente vivendo a própria vida. Férias tem um ar carnavalesco, de libertação para alguns. E para outros, tem um peso pesado, do dinheiro economizado, arduamente, para pagar aqueles dias de alforria, antes de voltar à escravidão que esta vida contemporânea de liberdades nos impôs.
Estou turista. Atônita com a quantidade de comida que vai pro lixo na farra do boi das churrascarias, com o tantão de doces incomíveis do café colonial, das 220 espécies de comida alemã que servem na mesma refeição, com a sequência de fondues, de sopas, tudo servido na mesa, da mesa pro lixo. O excesso, o abuso, o muito, o transbordamento de todos os desejos de férias de tudo. All you can eat, tudo o que você aguentar, dizem os americanos, cheios de bacons e gelatinas azuis no café da manhã. De férias, a galera encara até gelatina azul.
Pessoas que jamais se encontrariam passam um dia inteiro juntas, dentro de uma van, forçando um contato amistoso, afinado pela situação comum a todos: ser turista. Cearenses confraternizam com gaúchos que confraternizam com mineiros de São Paulo. Todos falam super bem das suas cidades, exibindo seus dotes, como se fossem filhas prontas a casar. Todos invejam os cariocas, menos os baianos, que têm a maior auto-estima do país. Todos se amam dentro de uma van de excursão de dia inteiro. Alguns trocam emails e telefones, tiram fotos abraçados e fazem juras de amizade que jamais se concretizarão. No almoço onde o vinho é liberado, passam do ponto, em nome das férias. Não importa. Naquele momento, coração aberto, todos estão prontos e livres.
E se vivêssemos, dia após dia, com o desprendimento parvo das férias, com o coração aberto ao novo, alma leve e disponibilidade para experimentar o que não conhecemos, curiosos, sem julgamentos, com a maior boa vontade dos mundos?
Quero olhar o mundo com olhos de turista. Turista da minha própria vida, do meu cotidiano, sem nunca perder o olhar primeiro. Feliz, embriagada de sol demais e cheia de sede de liberdade, aventura e confraternização.
Devia ser sempre assim: nós, turistas. A vida, férias."
(fonte: http://avantderniere.wordpress.com)
E O 2º ORKONTRO - RJ VIROU "ENCONTRO DE AMIGOS VIRTUAIS"
FOI DIMAIIIIIIXXXXXXXXXXXX!!!!!!!!!!
KARIN E JOSEPH VIERAM DE TAMM,NA ALEMANHA, PATY VEIO DE SANTOS/SP, NÉIA VEIO DA BAHIA, ANNE E FAMÍLIA VIERAM DE ITABORAÍ/RJ, JUNTE-SE A ISSO, TÂNIA DE SÃO GONÇALO/RJ, CIDA E ANDRÉA COM SUAS FAMILIAS, + LIA E AQUILES, DO RIO, E O QUERIDO CASAL CLÁUDIA E SYDNEY DA TIJUCA/RJ...ROLOU COMIDINHAS DELICIOSAS, BOLO, FUTEBOL, MIMOS, PRESENTES, PAPO GOSTOSO, DECLARAÇÕES DE AMOR-AMIGO, PERDÃO, ABRAÇOS MIL, A EMOÇÃO DE VER O VIRTUAL SE TRANSFORMAR EM REAL, UM DIA FOI POUCO PRÁ GENTE APROVEITAR UM POUCO DO BOM DE CADA UM, FICOU UM GOSTINHO DE QUERO-MAIS!!!














sexta-feira, 31 de maio de 2013
OS BOLOS DA TIA IOLANDA
Na década de 70, quando eu ainda não tinha esse horroroso tom de louro-cinza nos cabelos, mas sim, cachos dourados da cor das espigas de trigo amarrados em laço de veludo azul, e nas rádios esgoelavam-se Beatles e Rolling Stones; as famílias costumavam visitar-se todo final de semana, via de regra, a família do meu pai, e na maioria esmagadora, íamos na casa dos que moravam em Blumenau. Tínhamos tios em Luis Alves, Ibirama, Encano, Ascurra, mas muito longe para uma “passadinha” típica de domingo. Na Blumenau daqueles tempos, não havia televisão na maioria das casas, nem qualquer outra grande opção para diversão na cidade, além de dois cinemas, salões de bailes e domingueiras. Mas isso era coisa para adultos e solteiros... E nessas visitas de domingo, automaticamente já se marcavam as próximas reuniões, festas ou visitas, e não era raro que mais de um núcleo da família se visitassem ao mesmo tempo. Meus irmãos raramente iam junto nessas incursões, pois no auge da adolescência, queriam mais era ir ao cinema, às festinhas do Clube Subtenentes ou ficar em casa ensaiando suas músicas ao violino e gaita, as músicas de bandinhas alemãs que animariam as festas lá de casa, quando nós fôssemos a bola da vez. E lá íamos nós, engomados nas nossas “becas” de domingo, à espera do ônibus, de boa vontade pelo meu pai e não raro, à contragosto pela minha mãe. Mas era tradição, e rotineira.
E qual era o roteiro:
Por ser mais perto da nossa casa, íamos muito na casa do Tio Nicolau. Tinham uma casa muito velha, no bairro Água Verde, toda tomada de cupins, com tudo que tinha dentro caindo aos pedaços também, mais parecendo uma casa mal assombrada.
Eram dois viciados. Minha tia, esquelética, vivia em função de fumar um cigarro atrás do outro, cuidar do boteco que tinham na frente da casa, num cômodo reformado, e de gritar com meus dois primos, quando as traquinagens ultrapassavam o ponto de inércia dela. Seus cabelos excessivamente brancos apesar dela ser relativamente jovem, sempre estavam de mal com os ventos. Ela parecia mais uma personagem saída dos contos de fada, não exatamente na figura da princesa... e não por nada, o nome dela era Alma... Eu não entendia muito o porquê daquelas nossas visitas, porque sempre voltávamos prá casa “defumados em nicotina” e com os cabelos cheios do “subproduto” dos cupins. Meu tio, sempre recostado na cadeira de balanço que ficava ao lado da janela da copa, cuja asa direita pendia pela falta de parafusos em uma das dobradiças superiores, estava sempre à ouvir algum jogo no rádio SEMP. No caso, o preferido era o clássico entre Palmeiras e Olímpico, times de elite blumenauenses, há muito extintos. Vestido com uma camisa do Flamengo que mal lhe cobria o volumoso abdômen, parecia nem notar nossa presença, só acenava distraidamente, absorto e focado no radialista que punha toda a emoção naquelas narrações esfusiantes e irreais, no som do seu radinho de pilha. Ele socava a mesa, xingava o juiz, a mãe do juiz, os jogadores, até o gandula caso atrasasse a reposição da bola. Só mesmo quando tocava o apito final é que ele nos percebia na totalidade. Ninguém se importava com isso, ficávamos de papo com minha tia, que sabia conduzir uma conversa animada como ninguém, cheia de histórias e “detalhes sórdidos” de todo o clã, em especial, dos Haskel do Garcia. Daí, meu tio finalmente se juntava à nós, contando detalhes do jogo, por vezes irritado com o resultado, por vezes feliz com a vitória do Olímpico, e eu adorava ouví-lo dando aquela risada que mais parecia a do Papai Noel, um sonoro ho-ho-ho!
Minha mãe ficava abismada que minha tia conseguisse fazer o “café das visitas” sem largar um dedo sequer do cigarro aceso, e com sorte, não éramos sorteados com cinzas ou alguma bituca nas xícaras. Ela era viciada no cigarro, e ele, no futebol, e acredito que esses vícios, somados ao trabalho no boteco, era o que lhes impedia de dar um upgrade na casa. Mas tanto eles como aquela casa velha são riquezas nas minhas lembranças de infância, pois foi lá que passei um dos natais mais memoráveis da minha vida, com Papai Noel de verdade, com meus primos acuados num canto da sala, apavorados... mas isso é assunto para outra história...
Outras vezes visitávamos o Tio Albert, na Fortaleza, bairro distante do centro, mas onde gostávamos de ir por se localizar num vale belíssimo, cercado pelo verde dos pastos e com uma imensa mata de eucaliptos e pinheiros a perfumar o ar. O sítio desse meu tio ficava no canto onde as montanhas se abraçavam, e a casa, estrategicamente situada aos pés delas. Era muito silencioso ali, só se ouvia o canto dos pássaros e o vento revolvendo as matas. Mais parecia o endereço da paz. O caminho para chegar à casa era ladeado de margaridas, caprichosa e pacientemente plantadas pela minha tia Anne, e eu achava aquilo esplêndido, pois vivia repleto de borboletas. Meu tio, um simpático gordinho de suspensórios, bochechas rosadas e de apertados olhos azuis, nos aguardava na porteira que limitava o quintal da casa e dos pastos. O quintal era repleto de flores multicoloridas, plantadas em belos canteiros, tudo tão bem cuidado, que dava gosto ficar olhando e admirando a generosidade da natureza naquela profusão de cores. A casa era antiga mas bem arrumada, com sua varanda cheia de gerânios nas floreiras, a cozinha fresca pela brisa que soprava pela janela, tremulando nas cortininhas de xadrez bordado e o cheiro dos eucaliptos envolvia tudo. O quintal era pontilhado de aves domésticas, mas eu gostava era de chegar lá e tocar o terror nos patos. Meus pais como sempre, se reuniam com meus tios em intermináveis conversas na sala. Ficava imaginando o que tanto eles conversavam, como conseguiam se divertir passando o dia todo falando! Pensava nisso, ao mesmo tempo em que corria atrás dos patos, aves desengonçadas e engraçadas mas que me encantavam. Me era proibido sair para os pastos pois o touro mais bravo do meu tio estava solto e eu, até hoje, morro de medo desses bichos. Depois de correr a manhã toda atrás daquelas pobres aves, sem primos para brincar, sem poder correr nos pastos, acabava ficando entediada. Naquela casa não havia brinquedos porque meus tios nunca tiveram filhos. O que compensava ir lá eram os almoços da minha tia, verdadeiros banquetes repletos de pratos da cozinha alemã, temperados no agridoce. Marreco recheado, farofa de frutas, chucrute com anis, nhoque de batata doce dourado na manteiga e farinha de rosca, picles de beterrabas e pepino na folha de uva. E as sobremesas: ovos nevados boiando num creme rosado feito de amoras, sagu de vinho com calda de baunilha, calda de carambola com pudim de chocolate... imperdível!!! Saíamos de lá rolando...
E tinha a vez de ir na tia Walinka, também no Água Verde, pouco mais distante do Tio Nicolau, mas relativamente perto para irmos à pé. Era nossa “tia revendedora da Avon”. A casa cheirava à “Charisma” e” Toque de Amor”, conhecidas fragrâncias da perfumaria famosa. Estava nesse ofício desde que a conhecíamos e era o que ela mais gostava de fazer para driblar as ausências do meu tio Oswaldo, indo de casa em casa com sua sacola de revendedora. Meu tio era dono de uma boate em Ascurra, pequena cidade do interior catarinense e raramente estava em casa, pois o movimento maior do “estabelecimento” era nos finais de semana. Nessas visitas, meu pai nunca ia, por conta da ausência do meu tio, por não ter com quem manter assuntos e conversas de homem. Eu adorava ir lá porque tinha 3 primas e 1 primo quase da mesma idade que eu, e brincávamos de gastar a sola do pé. Meu primo era mais “na dele”, não ficava muito conosco, mas gostava da nossa visita porque minha mãe sempre levava bolo de queijo prá ele. Era um pequeno chantagista, falando que só gostava de ir na nossa casa por conta do bolo de queijo da minha mãe, e ela tendo ouvido isso, nunca o decepcionava. Conosco, essa chantagem funcionou do contra, pois ele ganhou o direito de ficar sempre de escanteio nas brincadeiras. Um dia, minha tia chegou lá em casa chorando, e depois de uma longa conversa com meus pais, deixou minhas primas e meu primo lá em casa, num ato desesperado, decidida a ir atrás do meu tio e quem sabe, trazê-lo à realidade da vida, fazê-lo lembrar que tinha uma família. As ausências dele estavam cada vez maiores e as presenças mais espaçadas, era mister que se tomasse alguma atitude drástica. Minha mãe se apavorou na iminência de ficar com 5 crianças em idade escolar em casa, com responsabilidade quadruplicada e com mais 4 bocas para alimentar, mas não poderia negar esse favor à minha tia, pois tinha pena e sabia o que ela passava tendo que criar e educar 4 crianças, praticamente sem ajuda. Eu fiquei feliz da vida, pensando que tinha ganhado 3 irmãs e mais 1 irmão, e que eles ficariam lá em casa prá sempre. Mas algumas semanas depois, minha tia voltava, sozinha, entristecida, prá buscá-los. O planejado não dera certo. Deixou alguns perfumes prá nós como agradecimento e se foi. Minha ilusão de ter uma família gigante cairia por terra e a vida voltaria ao seu curso normal.
Mas o programa mais legal, o que mais gostávamos dessas visitas domingueiras era de ir na casa do tio Fridolin e da Tia Iolanda, no Garcia. Quando minha mãe anunciava com indisfarçável sarcasmo: “arrumem-se que hoje vamos na casa dos Barões !!!”, já sabíamos que iríamos ter um dia atípico.
Esse núcleo da família do meu pai era caricato. Não se sabe bem porque, se achavam a “nata” da sociedade blumenauense, com um braço na realeza, só porque detinham o único automóvel de toda a família Haskel na época, e mesmo assim o aparato ficava mofando, estacionado infinitamente na garagem, pois ninguém da casa sabia dirigir. Minha prima Madalena tinha pavor até de chegar perto daquela geringonça e meu primo Osvaldo não se interessava, pois sabia que se aprendesse a dirigir, teria que levar todo mundo prá lá e prá cá contra a sua vontade. Foi esperto. Quando meu tio resolveu que enfim, tirar a carta, foi do Garcia até na Fortaleza, na casa do meu tio Albert – prá se mostrar, claro – todo em 1ª marcha, e tanto forçou o motor que o carro pegou fogo quando chegou ao seu destino! Motivo de chacota por décadas... Minha tia Alma soube do incidente e foi a pilhéria do ano, a família toda ria de se acabar. No alto do seu nariz empinado, logo compraram outro carro e calaram o riso de todo mundo. Ponto prá eles.
Se achavam os contemporâneos por manterem um filho na Alemanha. Para a sociedade blumenauense dos anos 60-70, sem informação suficiente, achava-se que era o poder dos poderes quem pudesse mandar um parente prá estudar ou trabalhar na Europa, mas o detalhe sinistro, o que ninguém esclarecia, era de que a Alemanha contratava estrangeiros para fazer o trabalho sujo da reconstrução do pós-guerra, serviços que eles mesmos não queriam fazer, e sabe-se lá o que isso poderia significar... mas meus tios rolavam em cima dessa bravata. Meu primo, mais esnobe ainda que os pais, dificilmente os teria deixado cientes de que na realidade carregava tijolos, limpava latrinas, faxinava obras na dita “promissora” Alemanha capitalista.
Alheios à isso, saboreavam o status de terem uma casa duplex numa área livre de enchentes (curioso é que isso, ainda hoje, é um status velado em Blumenau...). Era uma casa confortável, realmente, com suntuosas cortinas de veludo vermelho na sala, lustres de cristal, móveis de jacarandá, tapetes peludos, e eletrodomésticos modernos de ultima geração na cozinha (em 1970 traduzia-se “última geração” como sendo ter liquidificador e batedeira de bolos...). Também gabavam-se de ter uma casa de praia em Camboriú, mas o que ficamos sabendo é que o imóvel ficava tão longe da praia propriamente dita que se alguém quisesse se refrescar nas cálidas águas do Atlântico sul, teria que ir de ônibus ou taxi. A “baixa casta” da família, provavelmente por despeito ou inveja mesmo, se divertia, deitava e rolava comentando o fato.
Chegar lá e ver a coleção de postais que o antipático e narigudo primo Nelson acabara de mandar das frias terras germânicas, era programa obrigatório para as visitas. Fazia parte do roteiro... Aí tínhamos que aguentar postal por postal, foto por foto, toda a falácia em torno dos grandes feitos do “Nelsinho” no trabalho, saber o que o “Nelsinho” comprou de bárbaro, o que a Alemanha tinha de legal e diferente do Brasil, e blá-blá, blá... Meu pai fazia vistas grossas diante dessa galhardia toda, mas minha mãe torcia o nariz quando a coisa tomava proporções tais que ficava em vias de minar o “enfastiômetro” dela. Mas tudo isso fazia parte da espera para o grande momento, a apoteose da visitação. Prá mim, o divertido era poder me esbaldar de brincar naquela sala aveludada, correr entre aqueles móveis, afundar nos tapetes, mas sempre sob o olhar atônito da minha tia, disfarçado de sorriso amarelado. Aí, numa pausa, ia ver os postais e fotos com neve do meu primo esquisito do estrangeiro. Mas o melhor, o que realmente nos levava até lá, o que nos fazia aguentar todo aquele pavoneamento, os ares superiores, o peito estufado dos meus tios, eram as maravilhas em camadas que minha tia trazia orgulhosamente da cozinha: os seus famosos bolos confeitados. A fama desses bolos corria solta pelo bairro e todo mundo da família já tinha provado e aprovado com louvor e olhos esbugalhados. Não fossem tão bons, duvido que alguém quisesse de fato voltar a visitar a “Família Pavão”. Minha tia não era profissional, teve o privilégio de nascer com esse talento inato. Nunca trabalhou na função porque talvez se achasse “madame” demais prá trabalhar fora. E meu tio alimentava essa soberba dela porque do alto do seu discurso machista, não conseguia imaginar a mulher trabalhando para os outros e quem sabe, o inadmissível, ganhando mais dinheiro que ele. Enfim, uma pena. Além de belíssimos, essas maravilhas em pedaços exalavam um aroma, que confeitaria “classuda” nenhuma conseguia imitar, nem com aqueles balcões lotados das mais finas iguarias.
Era um aroma misto de levíssima massa branca misturada à pura fava de baunilha, com as nuances do aroma de chantilly e leves notas de limão persa, que se espalhava no ar como a mais fina fragrância francesa. Tão singular que conseguíamos adivinhar seu recheio. Minha tia os trazia à mesa com um sorrisinho de satisfação no canto da boca, pois era segura do seu talento e do sucesso que faziam. A mesa posta para o café, prá mim, era digna dos mais suntuosos palacetes da realeza. Tortas, bolos, folheados açucarados, biscoitinhos recheados diversos, tudo saído das mesmas mãos de fada e servidos em belíssima porcelana Schmidt, item indispensável na lista de casamento daqueles tempos. A “parte rude e tosca” da família, que éramos nós e todo o resto do clã, avançávamos sem pudor naquelas fatias de paraíso. Me recordo até hoje, de um bolo magistral, todo salpicado de balinhas de chocolate colorido (protótipo do M&M de hoje). Era para o aniversário da minha prima Madalena. Muito alto, devia ter umas 10 camadas de recheio, e vinha todo pomposo no alto de um prato de cristal próprio, com pedestal. Envolto em generosa camada de levíssimo chocolate maltado, era todo bom, no visual e uma festa para o paladar. Quando meu prato foi servido, pude experimentar a mais sublime sensação gastronômica da vida! A massa perfumada, leve, com recheio de creme de ameixas pretas e nata batida com baunilha, tinha um quê de encantamento indefinível. As bolinhas coloridas explodiam na boca, liberando um creme achocolatado que até hoje nunca experimentei e do qual nunca esqueci, está marcado na minha memória gustativa prá sempre.
Ao fim da visita, com os ouvidos doendo, levávamos prá casa, como prêmio da “confeiteira”, generosos pedaços daquelas delícias, finamente embrulhadas em guardanapos de papel rendados. Eles não davam ponto sem nó, sempre fazendo-nos lembrar de nossa condição inferior e de sua superioridade, fosse num pedaço de papel afrescalhado como o que envolvia as sobras de bolo. Mas nem ligávamos...tudo nos faria relembrar e nos daria motivo para passarmos horas ao redor da mesa do café no dia seguinte, rindo e confabulando sobre eles, do modo de vida deles, e de como eram emproados, cheios de si, bravateiros, e das inegáveis maravilhas servidas naquela visita.
Quando seria a próxima? Dependeria dos cartões enviados pelo tímido e fanhoso primo Nelson.
Tânia Haskel – outubro/2012
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
...E O MARIDO VAI VIAJAR...
Postei isso um dia numa comunidade de esposas de militar da Marinha, e parece que gostaram, é a abertura do tópico "E o marido (noivo, namorido) vai viajar..."
Fala das agruras e delícias da família de militar, seus lados bons e ruins:
E O MARIDO VAI VIAJAR (NO CASO, DE NAVIO...POR DIAS E DIAS, ÀS VEZES MESES!)
É UMA NOTÍCIA DE ARREPIAR, NÃO?
MAS EXISTEM OS LADOS BONS E RUINS.
OS BONS: O DINDIN, A CASA FICA ARRUMADA, A GELADEIRA CHEIA, SOMOS DONAS DO CONTROLE REMOTO NOVAMENTE, A CERVEJA É SÓ NOSSA, O CARTÃO DE CRÉDITO LIBERADO, PODER FICAR O SÁBADO TODO NO SHOPPING VENDO VITRINE SEM TER QUE SE PREOCUPAR COM HORA DE ALMOÇO (FILHO COME NO MC DONALD´S, FELICÍSSIMO), NEM COM ROUPA LAVADA E PASSADA (NO CASO, MACACÃO E FARDA), AÍ O COMPUTADOR (INTERNET) É SÓ NOSSO, O CARRO TAMBÉM, E QUANDO CHEGA DE VIAGEM É UM "AMOR LOUCO E SELVAGEM", ...E POR AÍ VAI...
O LADO RUIM: O "AMOR LOUCO E SELVAGEM" DO RETORNO SÓ DURA 1 DIA, FILHO COM SAUDADE FICA COM FEBRE, NÃO TER QUEM LEVE O LIXO PRÁ RUA, A CAMA FICA FRIA E ESPAÇOSA DEMAIS, A CASA FICA IMENSA E VAZIA, A "PULGA ATRÁS DA ORELHA" É CONSTANTE, A FALTA DE NOTÍCIAS, A SAUDADE, A "SECA", ENFIM, VIAGEM DE MARIDO (NAMORADO) É COISA DE CRIAR EXPECTATIVAS, BOAS E RUINS. CADA QUAL PESE OS SEUS LADOS, DEPENDENDO DO AMOR E DA FALTA QUE NOS FAZ ESSE MILITAR QUE ESCOLHEMOS PARA TER AO NOSSO LADO.
O PUDIM DE NATAL
O Pudim de Natal
Tinha muito gosto quando meus pais decidiam querer visitar os primos de Ibirama, melhor, meu coração disparava de contentamento! Os Harbs eram parentes diretos de minha mãe, e de tudo que lembro das temporadas passadas por lá, era simplesmente onde eu mais me divertia na vida. Tinha uma prima (Ilca)e três primos (Ivo, Inor e Guinter) que parecia terem sido feitos da mesma química que eu, pois era bom demais estar com eles, brincando ou simplesmente conversando, era tudo de uma sintonia desconcertante, peças de uma engrenagem perfeitamente ajustada, como irmãos de pais diferentes. Quanto mais tempo ficava com eles, mais tempo queria estar.
Meus tios eram mestres na arte de receber, apesar da vida simples e da casa modesta, éramos recebidos como reis, entre abraços e lágrimas de alegria genuína, e sempre com mesa farta.
A casa, na verdade, era funcional, dos patrões do meu tio Ingo, funcionário mais antigo da serraria “Jost”. Ficava num terreno nos fundos das pilhas de madeira da serraria. Aquela madeira, simetricamente empilhada em vários lotes numerados, serviu por toda nossa infância como esconderijo nas brincadeiras de pique-esconde e hoje, onde quer que eu vá e sinta o cheiro de farelo de madeira, me transporto para aqueles tempos, para aquela casa, para a companhia dos meus primos.
Dessa vez, a visita era muito mais especial, pois estávamos próximos ao Natal e nesse ano as festas seriam passadas lá. Felicidade plena prá mim!!!
Chegamos num sábado à tarde, 23 de dezembro, aniversário do meu pai. Como o rio passava nos fundos da casa, meu tio sabendo da nossa vinda (pois minha mãe havia mandado carta com antecedência avisando da nossa chegada), já estava tarrafeando com meus primos pelas margens do rio com a velha canoa feita por ele mesmo, na pequena oficina que tinha nos fundos da casa. Estavam em busca dos cascudos grandes, carnudos, peixes de sabor suave, sem espinhas, que ele sabia, todos adoravam. À noite, a peixada estava garantida, e nesse dia foi um jantar especial em comemoração ao aniversário do meu pai. Quando ele chegou com a rede cheia de peixes, a alegria estava completa. Minha tia fritava os cascudos envoltos em farinha de mandioca, no fogão à lenha e nós, esfomeados por uma tarde inteira de brincadeiras, esperávamos com a barriga roncando, a hora de saborear essa iguaria, com muito caldo de cascudo, pirão branco e arroz. A conversa ao redor da mesa era animada e cheia de novidades.
A árvore de Natal já estava montada na sala, repleta de bolinhas de vidro coloridas e floquinhos de algodão. Depois da janta, sentávamos no chão da sala prá ficarmos admirando aquela árvore simples, mas de tanto valor para nosso espírito infantil. Foi quando minha tia anunciou que na noite da véspera de Natal faria o seu famoso Pudim de Framboesas com molho de creme holandês. Um grande e retumbante ÔBAAAAAA soou na sala, pois sabíamos o que esse “framboesas” significava, e minha tia ria do nosso contentamento, pois esse pudim era receita de família e só era feito em grandes ocasiões. Para meus tios, as nossas visitas, o aniversário de meu pai daquele ano e o Natal significavam essas datas especiais. Como era bom ser tão querido assim...
Quando acordei na véspera de Natal, a cozinha já estava funcionando à pleno vapor, panelas fumegantes cheias de batatas, macarrão caseiro, beterrabas para os picles, tudo estava em andamento em aromas que só se sentiam numa data como esta. Um grande peru ardia no forno, e a forma do famoso pudim já estava untada com açúcar cristal, pronta para receber os ingredientes. A água do banho-maria também já estava esquentando e o melhor ingrediente, as framboesas, ainda estavam por ser colhidas, e isso era o que de melhor estava por vir nessa manhã. Significava que podíamos pegar as bicicletas no rancho e ir até a chácara do tio Rudolf colher as frutinhas mágicas, aquelas que abrilhantariam nossa mesa de Natal em forma de uma magnífica sobremesa. Tinham que ser colhidas frescas, para o sucesso da empreitada. E com o coração na boca de ansiedade, colocávamos sacolinhas no guidom das bicicletas e saíamos para a missão. Ah, como era bom percorrer com liberdade aquele caminho quase deserto às margens do rio! Se Papai Noel não viesse hoje, aquela colheita já seria meu presente de Natal, tamanho o prazer que era dominar uma geringonça daquelas numa estradinha de terra que mais parecia um tapete, ladeada por paisagens de tirar o fôlego, sentir o vento nos cabelos. Era seguida pela minha prima e primos, como loucos, em gritaria de plena felicidade. Ficávamos em êxtase, o dia era mágico, tudo o que acontecesse seria de pura alegria, todas as cores do mundo passariam pelos nossos olhos e corações, numa vibração de plenitude. Como era bom ser criança e poder ver a vida com essa simplicidade, ser feliz com tão pouca coisa. Mas enfim, chegamos à chácara. Abrimos a grande porteira e deixamos as bicicletas encostadas nos mourões de madeira da cerca e adentramos a chácara à pé. Logo avistamos lá longe, a casa de tijolinhos, com a chaminé fumegando, provavelmente nos preparativos da ceia de Natal também. O tio Rudolf não estava em casa, tinha ido na venda comprar anzóis e nos avisado em casa mais cedo, mas deixara recado sobre a nossa vinda e propósitos. Como meus primos já sabiam onde ficava a plantação, de longe deram um aceno para alguém que estava na varanda, prováveis visitas para o Natal daquela casa, no que foram correspondidos e nos dirigimos prá lá, com as nossas sacolas. Passamos por plantações de videiras, aipim, milho, batatas-doces e amendoim. Um grande pé de nêsperas à nossa frente nos convidava a provar de seus frutos, com seus grandes cachos pendendo à nosso alcance. Sentamos um pouco para descansar, pois o caminho era ladeira acima, e nos fartamos com as nêsperas madurinhas. As framboesas ficavam um pouco mais adiante. Poucos passos e já podíamos avistar a longa fileira de parreiras com seus frutos arroxeados pendendo entre suas folhas. Que maravilha! Sacamos de nossas sacolas e começamos a colhê-las, com o cuidado de não deixar cair nas roupas, pois manchavam facilmente. Depois de colher e comer, óbvio, voltamos calmamente pelo mesmo caminho, saudamos a mesma pessoa da varanda e seguimos para nossas “Monaretas” dos anos 70. Prá mim, andar de bicicleta, era uma felicidade à parte porque eu nunca tive bicicleta, apenas um triciclo que foi roubado quando ainda não tinha 5 anos. Aprendi à me equilibrar na “magrela” com amigas da rua. A volta prá casa eu queria curtir mais, pedalar mais devagar para saborear cada metro da paisagem, absorver toda a energia possível daquele dia perfeito. Adorava ver as floreiras repletas de gerânios róseos e vermelhos nas janelas nas casas de tijolinhos à vista e seus jardins, o gado ruminando calmamente atrás das cercas de arame farpado com seus mourões musguentos, o rio que corria sereno ao nosso lado, ouvir o canto dos pássaros, avistar as suaves colinas esmeralda, de pastagens cheias de alvas ovelhinhas, as majestosas árvores centenárias, aquela paisagem toda que felizmente nunca mudava e que me deixava sempre deslumbrada cada vez que ia lá. Mais algumas centenas de metros de diversão e estávamos em casa, com sacolas abarrotadas de frutas. Minha tia que já nos esperava, bateu o creme com as frutas e despejou na forma, que foi direto para o forno, junto ao peru. O creme holandês era feito à parte.
Ainda tivemos tempo para um rápido e divertido banho de rio e almoçamos. Que manhã ensolarada fora essa. Esse era o verdadeiro sol da vida. Estar com quem amamos, num lugar tão espetacular, repleto de belezas, e em plena véspera de Natal... como poderíamos ser mais felizes?
Mas quando se é criança, as sequências de momentos felizes são feitas de pequeníssimos intervalos, e a noite de NATAL chegara. Mal tivemos tempo de nos recuperar daquela manhã magnífica e já estava a noite nos esperando com mais golpes de felicidade. Como conter no peito tanto sentimento? As velas da árvore de Natal foram acesas, enquanto cantávamos canções natalinas alemãs, nos entreolhando com cumplicidade e carinho, e os poucos e simples presentes eram distribuídos por um Papai Noel bem suspeito, pois meu tio sumira antes e aparecera depois da passagem do bom velhinho... e a hora da ceia nos trazia ao ato final e triunfante do dia. Ceia com mesa cheia e alegre, servida de arroz, macarronada caseira, salada de batatas, picles, o peru esplendidamente assado e recheado, e os pequenos e roxos frutos da nossa “colheita feliz” transformados orgulhosamente num rosado e reluzente Pudim de Natal. Como ponto alto da festa, estava lá, tombado sobre um belo prato de porcelana, com o molho holandês a escorrer-lhe pelos flancos, era tudo um espetáculo para os olhos, paladar e espírito! E o pisca-pisca na varanda nos fazendo lembrar que aquilo não era um sonho, que estávamos entre pessoas que amávamos, em volta de uma mesa, celebrando a união, a saúde, em plena harmonia e comunhão, exatamente como Cristo gostaria que fosse sua festa de aniversário.
A felicidade reside em momentos simples, tornados especiais por pessoas especiais. Tenhamos a capacidade de ajustar o foco neles e buscar nos pequenos acontecimentos o entendimento sobre esse presente de Deus para nós, A VIDA! E essa vida pode ter gosto de mel e fruta tirada do pé. Pois é nas coisas simples que mora a nossa essência perdida. Encontros, sorrisos, pequenas gentilezas, natureza, abraço, agradecimento, amizade, reconhecimento, sentimentos puros, tudo é de graça, e o que é mais simples e singelo, nos traz mais perto do Criador.
Louvemos a Cristo e Feliz Natal!!
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Pérolas do facebook...
Hora de reverenciar meu time do coração!!!
Sou
tricolor de coração. Sou do clube tantas vezes campeão. Fascina pela
sua disciplina,O fluminense me domina.Eu tenho amor ao tricolor!
Salve o querido pavilhão, Das três cores que traduzem tradição:
A paz, a esperança e o vigor. Unido e forte pelo esporte, Eu sou é tricolor!.....
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